Kayak Oceânico em Raja Empat - Papua - Indonésia

Written by  | Terça, 02 Setembro 2014 00:00

Uma das coisas mais gostosas de uma expedição é o cuidadoso planejamento pensando em cada detalhe, curtindo cada etapa, comprando ou separando o que é necessário, pesquisando na internet e em livros o lugar para onde você irá. A contagem regressiva, os últimos dias antes do embarque. Infelizmente nada disso aconteceu na minha última expedição. Tinha tudo certo para passar um mês escalando em rocha na ilha de Kalymnos, na Grécia, mas 10 dias antes de embarcar tive, por motivos pessoais, de cancelar esta viagem. O que colocar em seu lugar?
Nos últimos anos, em minhas férias, busco lugares ainda não tão influenciados pelo turismo que a cada ano aumenta de forma exponencial. Lugares que até pouco tempo eram razoavelmente pouco visitados hoje viraram destino de massa, Vietnã e Myanmar são bons exemplos disso. Com isso em mente fui ao Mustang e ao Dolpo, duas regiões pouco visitadas do Nepal, e ao Afeganistão e ao Tajiquistão, na Ásia Central. Duas dessas viagens fiz com meu grande amigo de longa data Saverio Mennella que, assim como eu, tem o mesmo objetivo de ver partes do mundo ainda intocadas.
Com um mês em minhas mãos e sem planos, liguei para ele e perguntei se ele teria o mês de setembro livre para mais uma de nossas aventuras. No dia seguinte me respondeu que sim e começamos a fazer uma lista de potenciais lugares para nossa viagem. Madagascar, Monte Kailash, o Snow Man Trek no Butão, Raja Empat na Indonésia, os Tapuis da Venezuela ou trekkings no Yellowstone. Por frenéticos 5 dias pesamos os prós e os contras de cada destino até que por casualidade, não acreditando que iria encontrar alguma coisa, coloquei no Google (Santo Google!!) kayak em Raja Empat e veio um link de uma ONG que fabrica kayaks sul africanos a partir de moldes da fábrica de lá e os aluga, revertendo esta renda para projetos sociais na região. Entrei no site sedento já que isso juntava dois antigos sonhos, fazer uma longa viagem de sea kayak e conhecer uma região do planeta com algumas das mais lindas paisagens marinhas – Raja Empat! O que tinha escutado das pouquíssimas pessoas que tinham ido para lá era que era o melhor lugar de mergulho do planeta mas que era caríssimo com apenas alguns poucos luxuosos resorts de mergulho. E no site do Kayak for Conservation (http://kayak4conservation.com) falavam de inúmeras pequenas pousadas familiares que esta ONG estava ajudando a montar na região, lugares muito simples em lugares maravilhosos a um preço super razoável de US 35 por dia por pessoa com 3 refeições. Mas além disso falava da possibilidade de acampar em qualquer das mais de 1800 ilhas da região. Pronto, estava decidido! Agora era comprar os tickets para Jakarta, arrumar a mochila com poucas roupas, uma barraca, um sleeping bag de verão, máscara e snorkel, repelente, filtro solar, um GPS e vários sacos impermeáveis para guardar tudo. Em outros cinco dias estávamos nos encontrando em Jakarta!
Com aquela deliciosa sensação que temos ao iniciar uma maravilhosa aventura embarquei em Saint Petersburg, onde acabava de guiar um grupo ao Mt Elbrus, e rumei para uma das cidades mais pavorosas da Ásia.
Após mais dois voos, uma viagem de 3 horas em um ferry e mais de uma hora em um barco com motor de popa estávamos em uma das homestays (pousadas) que tínhamos lido no site, nossa base nos próximos dois dias antes de começarmos nossa viagem de kayak. Mas estávamos super inseguros já que não tínhamos feito nenhum plano e raras vezes embarquei em uma expedição tão mal preparado. Mas os deuses estavam sorrindo para nós pois ao chegar ao Kayak4Conservation encontramos com o Max Ammer, o mentor da ONG e uma das pessoas mais experientes na área. Max está vivendo em Raja Empat nos últimos 22 anos e foi o primeiro operador de mergulho da região. Porém, mais do que seu conhecimento, o que nos encantou foi sua paixão pela região e pelo seu trabalho. Ao saber de nossos planos de fazer uma longa viagem pela região de 15 a 22 dias seu entusiasmo triplicou e passou praticamente o restante do dia conosco contando de cada ilha, dos lugares que não poderíamos deixar de ir, dos rios escondidos que tínhamos de explorar, das lagoas de água salgada, dos lugares com muita correnteza que deveríamos evitar e dos lugares com crocodilos de água salgada, os salties, como são chamados na Austrália e na Papua, monstros de até 7 metros com mais de 2 toneladas.
Abriu o Google Earth e foi imprimindo mapa por mapa e em seguida plastificando para que pudéssemos ter uma navegação confiável. E nos falou de Waiag, a cereja do bolo, uma ilha com um labirinto enorme de canais de água do mar cravejado de ilhas cônicas que saltam das águas translúcidas abruptamente. Mas, ele disse, chegar lá de kayak seria um grande desafio. Ficava a 200 quilômetros e ainda estávamos na época dos ventos fortes que terminariam em outubro. Também nos disse que até onde ele sabia apenas uma pessoa havia conseguido ir até lá remando. Pronto, isso atiçou nossa curiosidade e nossa enorme sede por aventuras. Imprimiu um mapa geral e com um marker foi desenhando nossa rota passando pelos lugares mais lindos da região e, claro, chegando a Waiag! Calculou que precisaríamos de ao redor de 20 dias para fazer todo o percurso.
Fomos então apresentados aos nossos kayaks, os kaskasis "made in Papua"! Apesar de minha pouca experiência em kayaks oceânicos, uma viagem de 400 quilômetros fazendo a primeira travessia da Lagoa dos Patos em kayaks em 2001, pude ver imediatamente que eram excelentes kayaks, bem acabados e profissionais. Com seus 5,3 metros de comprimento e 58 cm de largura pareciam super estáveis, impressão que seria confirmada nos últimos dias de nossa viagem, quando enfrentamos ondas de 2 metros de altura e um vento fortíssimo sem que nossos bravos kayaks nos dessem qualquer susto!
Ficamos então marcando ao redor de 30 waypoints (coordenadas – latitudes e longitudes) do Google Earth no nosso GPS e calculando a distância que percorreríamos. Era ao redor da mesma distância que tinha feito na Lagoa dos Patos mas naquela época eu tinha treinado por sete meses na USP remando duas horas por dia e agora estava com absolutamente zero de treino para esta atividade.
No final da tarde já com os mapas e os telefones deles para ligar a cada dois dias de nosso satélite para que pudessem acompanhar nosso progresso, embarcamos um pouco trepidantes em nossos kayaks para a curta e nervosa remada até nossa homestay. Chegamos lá exultantes! Estava começando....
Planejamos sair muito cedo já que o padrão era de ventos progressivamente mais fortes no decorrer do dia mas passei a noite no banheiro com uma das piores diarreias da minha vida. Não dormi nada e pela manhã estava super fraco e fiquei largado na cama, já medicado esperando a melhora. Surpreendentemente no meio do dia consegui comer alguma coisa e no meio da tarde, com o mar super tranquilo, resolvemos atravessar da ilha Kri, onde estávamos, para a ilha de Waigeo a 12 quilômetros de distância. Pela primeira vez colocamos tudo o que havíamos trazido dentro dos 2 compartimentos de carga de cada kayak e para nossa felicidade e surpresa tudo coube. Estávamos levando a barraca, colchonetes, fogareiro, 3 litros de combustível, 30 litros de água, nossa maior preocupação, comida para 10 dias ( restante dos dias planejávamos ficar em homestays), um par de shorts e uma camiseta extra, máscaras e snorkels, além de colete salva vidas e o spray deck ou skirt com é a peça de neoprene que o kayaker usa no tronco ligado ao kayak para evitar a entrada de água dentro do cockpit (lugar onde o kayaker senta). Estávamos prontos...
Apesar de minha fraqueza fizemos a travessia em pouco mais de duas horas e chegamos em nossa primeira homestay e aí se repetiu uma rotina que iria se repetir em toda viagem sempre que ficamos em uma desses maravilhosos lugares. A dona, ao nos ver, abriu um enorme sorriso e foi rapidamente preparar nossos quartos com muito cuidado e carinho. O lugar não poderia ser mais simples, uma construção de bambu com teto de palha, dois quartos com colchões no chão e mosquiteiro e uma varanda coberta de frente para a água com uma mesa e duas cadeiras. Nos instalamos e em seguida ela trouxe chá preto e foi para sua casa a poucos metros dali preparar nosso jantar de peixe frito e arroz branco. Apesar de US 35 por uma noite com 3 refeições ser um preço bastante razoável para nós, isso representa uma renda considerável para os donos dessas pousadas em uma região onde não se ganha mais do que alguns poucos dólares por dia de trabalho.
No dia seguinte começamos a rotina de acordar às 5 da madrugada com tudo ainda escuro para aproveitar a calma do mar. Mas, além dessa razão prática, tínhamos outra motivação para acordar tão cedo, acompanhar os maravilhosos nasceres do sol onde esta região tão linda fica mais espetacular, tingida pela luz suave do sol e aproveitar o frescor da manhã, já que estávamos exatamente no equador e no meio do dia o sol nos castigava impiedosamente.
Neste segundo dia enfrentamos pela primeira vez um forte vento de cauda que nos obrigava a surfar nas ondas de maneira precária despejando litros de adrenalina já que ainda estávamos nos acostumando com o movimento do kayak. Me lembrou de minha viagem de moto de Fortaleza a São Paulo muitos anos atrás onde sempre que pude vim pelas praias (naquela época ainda isso era possível). Nos primeiros dias, ainda sem experiência de pilotar sobre a areia, pensava que a cada momento ia cair até me acostumar com o balançar da moto.
Chegamos à homestay em uma lindíssima baía completamente isolada após 4 horas de remo lindíssimo. Os donos não estavam lá então nos acomodamos na varanda e cozinhamos pela primeira vez. Como já temia, a exemplo do que aconteceu no trek do K2 no Paquistão em 2000, o querosene tinha muitas impurezas e o fogareiro entupiu e tivemos de cozinhar com um fogo fraco soltando uma fumaça negra que sujava tudo ao redor. Isso iria se repetir por toda a viagem... Passamos a tarde olhando para o lindo horizonte, lendo e vendo os milhares de peixes abaixo de nossa varanda de palafita.
No terceiro dia seguimos pela costa da enorme Baía de Kaboiei no interior da ilha de Waigeo explorando as centenas de ilhas que formam um grande labirinto. Mais uma vez agradecemos ao Max por seus mapas e por nos ajudar com os waypoints do GPS. O ponto alto deste dia foi um pequeno rio que resolvemos subir por um quilômetro, um lugar de uma beleza selvagem e assustadora com troncos caídos na água, sombrio, de águas escuras, de onde imaginávamos que sairia um enorme crocodilo a qualquer instante. No final da tarde e após 30 km chegamos à mais uma maravilhosa homestay onde fomos recebidos com carinho, peixe frito e arroz.
No quarto dia de kayak exploramos um dos lugares mais lindos da viagem, a Hidden bay (Baía Escondida). O seu nome é totalmente apropriado já que se não tivéssemos o waypoints da entrada dela no nosso GPS não teríamos encontrado. E o pior, não teríamos saído já que o lugar é um verdadeiro labirinto de canais da água mais transparente do mundo com inúmeros peixes coloridos, arraias, tartarugas, águas vivas e até pequenos tubarões. A entrada da Hidden Bay não tem mais de 10 metros de largura mas a partir daí ela se abre em imensas baías que se comunicam com outras e outras e outras. De um modo geral o fundo era arenoso de uma transparência completa, de modo que não sentíamos que estávamos flutuando sobre a água e sim voando de maneira suave sobre milhares de peixes. Seguimos para nossa primeira travessia de mar aberto até a ilha de Paniki que era a imagem perfeita de um paraíso de ilha tropical, aquela imagem que temos de pequenos atóis na Polinésia, um ilha de não mais de 500 metros de diâmetro com palmeiras e coqueiros cercada de um lagoon de águas absurdamente transparentes e lá acampamos pela primeira vez sob um céu pontilhado de bilhões de estrelas e o ruído de centenas de morcegos enormes que habitavam a pequena ilha ao lado da nossa e que com o escurecer saíram de seus abrigos das árvores e levantaram voo rumo à noite escura.
No dia seguinte tivemos dois problemas com o kayak do Saverio. Como após umas duas horas de remo o mar começou a ficar mais bravo resolvemos colocar o spray deck (até então, com o calor e o mar tranquilo, estávamos sem ele) mas ao tirar o spray deck dos elásticos que o prendiam o Saverio o deixou cair na água e em um segundo ele não estava mais lá. Fiquei super preocupado pois se tivéssemos mar mais bravo ou ondas maiores teríamos problemas, mas não havia nada a fazer. Um pouco mais adiante novo problema, o leme do kayak do Saverio quebrou mas conseguimos consertar com Super Bond e apesar da preocupação de se esse conserto duraria a viagem toda, novamente não havia nada a fazer. Seguimos viagem. Essas preocupações foram mais do que compensadas pela chegada a um vilarejo de pescadores em uma pequena ilha. Ao chegarmos todos nos olharam sérios já que pouquíssimos estrangeiros chegam neste lugar. Mas, como sempre acontece em lugares assim, os primeiros a vencer a timidez, vencida pela curiosidade, foram as crianças que vieram inspecionar esses estranhos barcos e esses estranhos seres. Em um momento de inspiração lembrei do frisbie que o Saverio havia trazido. Pedi por mímica que as crianças se espalhassem pela praia e arremessei para eles. Pronto, em um minuto havia quebrado o gelo e todos, adultos e crianças olhavam e se divertiam com o brinquedo desconhecido.
Seguimos para nosso homestay que como todos os outros era lindo e acolhedor apesar da extrema simplicidade.
Antes de sairmos de Kri sabíamos que teríamos duas travessias de mar completamente aberto, 12 quilômetros de Oceano Pacífico e nada mais. Isso estava tirando nosso sono e imagens de correntezas fortíssimas nos carregando para a Coréia povoavam nossos sonhos. Quando finalmente chegamos a isso as preocupações se mostraram sem sentido, pelo menos nos dois dias que tivemos de mar tranquilo e com pouco vento. No décimo dia chegamos ao nosso sonhado objetivo. Todas as viagens têm de ser vividas no presente, a cada momento, e fizemos isso de forma absoluta. Mas também tínhamos um objetivo final e chegar a ele sãos e salvos nos deu uma enorme felicidade. E Waiag não decepcionou. Após um dia duro de muitos quilômetros de remo pesado entramos na enorme baía pontilhada de ilhas maravilhosas cobertas de vegetação tropical até a água transparente. Sentados na água morna de constantes 27 graus na beira da praia onde acampamos e olhando a paisagem maravilhosa ao nosso redor nos sentimos no paraíso, plenamente realizados e felizes de termos conseguido chegar até ali. Mas, com o pôr do sol, tudo mudou e do paraíso fomos diretamente para o inferno. Milhares de mínimos borrachudos, infinitamente menores e mais vorazes do que os da Ilhabela nos atacaram impiedosamente. Não havia escapatória e durante a noite fomos devorados. O Saverio com uma tolerância muito maior do que a minha se enrolou como uma múmia em um enorme lençol que havia trazido e conseguiu se proteger e até dormir um pouco. Eu não tive a mesma sorte.
Embora nossos planos fossem de ficar mais tempo na ilha, na manhã seguinte, após explorar mais um pouco o lindo labirinto, começamos nosso caminho de volta. Havíamos feito exatamente 200 quilômetros até Waiag e tínhamos mais outros 200 para voltar para Kri. Mas esses próximos 200 quilômetros seriam equivalentes ao dobro com uma forte correnteza, ondas altas de até 2 metros de altura e vento super forte...contra. Se na ida fazíamos com facilidade 6,5 quilômetros por hora, na volta sofríamos para conseguir manter 3,5. Qualquer parada para descansar os braços exaustos significava metros perdidos por causa do vento e da correnteza. Foram 6 dias de muito esforço e cansaço mas com outras ilhas lindíssimas em especial as ilhas Fam que são uma miniatura de Waiag.
Após 16 dias chegamos de volta ao nosso ponto de partida mais do que felizes com o que havíamos visto e realizado, uma das expedições mais maravilhosas de minha vida. Isto vindo de mim, montanhista apaixonado e com pouca afinidade pelo mar e praias, é um elogio enorme... e merecido!

 

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