Escalando na Bolívia

Written by  | Quarta, 02 Julho 2014 00:00

Na Bolívia fiz duas das escaladas mais memoráveis de minha vida, a parede da Asa Esquerda do Condoriri, em 93, e a Cara Oeste do Huayna Potosi, em 98. Ambas são escaladas super técnicas e foram recheadas de muita emoção e deixaram um gostinho de quero mais...
No campo base do Condoriri em 93, conheci o Alexandre Cymbalista, que viria a ser meu sócio na empresa Latitudes e o Luiz Silva Jr, que seria um dos meus companheiros de escalada do Cho Oyu em 2009. No dia do meu aniversário saímos às 3 da manhã com o objetivo de escalar os 300 metros semiverticais da Asa Esquerda. Jamais esquecerei o presente que a natureza nos deu neste gelado amanhecer do dia 20 de agosto. Quando chegamos ao campo de neve na base da montanha, uma lua prateada se punha enquanto um sol radiante nascia no quadrante oposto. Ao iniciarmos a escalada, percebemos que as condições da neve estavam longe de ideais, mas mesmo assim continuamos até que, a 50 metros do cume, percebemos que seria uma temeridade seguir. Divididos entre os riscos de continuar e de ter de desescalar toda a parede, optamos por voltar com o coração apertado pela frustração de ver o cume tão perto e pelo medo da descida difícil que teríamos pela frente. Horas depois, na segurança do campo base, me prometi um dia voltar e fazer esta maravilhosa parede novamente.
Alguns anos mais tarde, de volta à Bolívia, mais uma vez a parede não estava em boas condições, mas estava mirando em um objetivo maior, a Cara Oeste do Huayna Potosi, uma parede de 1000 metros muito técnica e uma das mais difíceis da Cordillera Real. Já estava escalando na Bolívia há um mês e me sentia forte e suficientemente treinado para encarar este grande desafio. Junto com um guia boliviano acampamos na base da parede, prontos para sairmos às 3 da manhã para as esperadas 12 horas de escalada mas, quando acordamos, havia uma forte nevasca e, sem nada que pudéssemos fazer, voltamos a dormir. Quando acordamos novamente, às 8 da manhã, o céu estava azul e, depois de uma hora de muitas dúvidas, resolvemos escalar. Neste dia, mais do que nunca em minha vida de escalador, os deuses resolveram perdoar minha tolice e me conduzir em segurança. A parede estava carregada de neve fresca, pronta a desabar em cima de nós, e a escalada foi uma das mais tensas de minha vida. Fizemos o cume às 21 horas e não posso dizer que tenha sido algo que tenha curtido. Foram 12 horas de puro terror e arrependimento. Mas, neste tipo de parede, uma vez que você começa a escalada, não há volta...

Agora em junho voltei para a Bolívia com dois objetivos, viajar por este incrível país com a Fabiana, que ainda não o conhecia, e tentar refazer essas duas experiências de escalada como parte do meu treino para o Ama Dablan (6856 metros), no Nepal.
Apesar de não fazer muito tempo que tinha estado na região do Condoriri pela última vez, apenas seis anos, rever este conjunto de picos magníficos me emocionou com sua beleza. Montamos nosso acampamento ao lado do lago, com vista direta da parede que sonhava subir. A partir do dia seguinte, a Fabi começou seu curso com um velho amigo boliviano, Sergio, e eu saí para escalar com outro guia que ainda não conhecia mas que tinha sido indicado pelo Sergio com muito boas referencias, o Cecílio, um Aymara super técnico e forte com certificação UIAGM.
Nesta tarde da chegada, olhando o grande vale em ferradura que é a região do Condoriri, decidimos fazer uma trajetória circular subindo por uma das vertentes do Wyoming, chegando à Asa Direita do Condoriri e, então, voltando pela via normal.
Na manhã seguinte, acordamos às 4 da manhã e, ainda no escuro, já estávamos caminhando rumo ao início do glaciar. Neste e nos dias que se seguiram tivemos lindíssimos nasceres do sol enquanto nos preparávamos para escalar. Entramos no couloir com uma inclinação razoavelmente suave, mas que bem em breve se tornou bem mais inclinada. Era isso que eu tinha buscado quando vim para cá! Seguimos escalando, ora juntos, ora ele fazendo segurança de cima, ganhando lentamente os 900 metros que nos separavam da Asa Direita. Mas, como já fazia quase um mês que não fazia praticamente nenhuma atividade física, desde que tinha terminado meu último trek ao campo base do Everest, após 5 horas de escalada meu ritmo havia diminuído consideravelmente e os últimos 100 metros foram puro sofrimento. Mesmo assim, cheguei ao acampamento com um super sorriso no rosto. Tendo me dedicado a escaladas de montanhas altas (Cho Oyu, Everest, Aconcágua, Manaslu) nos últimos anos, onde o foco é mais em esforço físico e lidar com altitude do que em escaladas realmente técnicas, estar em uma parede de 60 ou 65 graus foi delicioso!

No próximo dia, mais uma vez, acordamos de madrugada, sina de montanhistas, saímos rumo ao Ilusión, outra montanha com ao redor de 5500 metros ao fundo do vale. Apesar de não tão difícil quanto o dia anterior, ainda estava cansado dos esforços. Esta pequena montanha apresenta uma parede final interessante e lindas vistas do Pequeño Alpamayo, que iria escalar mais tarde.
Seguimos, então, para a Piramide Blanca, outra das 13 montanhas com mais de 5000 metros da região. Caminhamos até o fundo do vale e iniciamos uma longa subida por rochas soltas até a curta, porém bem inclinada, parede final que nos levou ao cume.
Após um dia de descanso, banho e muita comida estava pronto para enfrentar a parede que 21 anos antes havia quase escalado...Saímos às 5 da manhã e ainda de noite estávamos subindo a encosta escorregadia com pedras soltas que leva ao campo de neve na base da Asa Esquerda do Condoriri. Cheio de felicidade por estar finalmente repetindo uma parede que vinha povoando minha imaginação por anos, começamos a escalada da parede com um ângulo de ao redor de 40 graus sabendo que um pouco mais para cima este ângulo ficaria muito mais inclinado. Mas nossa alegria durou pouco. Logo após cruzar o bergschrund, a grande cravasse que separa a parte móvel do glaciar da parte de gelo mais fixa acima, a neve tornou-se da consistência de açúcar e a cada passo afundávamos até a coxa e a cada passo para cima voltávamos meio passo para baixo. Após uma hora deste frustrante exercício chegamos à conclusão de que seria muito arriscado prosseguirmos. Se neste ângulo suave estava assim, o que seria quando chegássemos mais acima?
Há muito tempo que passei a encarar as desistências na montanha como lições de impermanência e de humildade. Raramente na vida estamos em controle da situação, embora achemos o oposto. Na montanha ainda menos. Tinha sido um começo de manhã maravilhoso com o céu azul escuro, o lugar era esplêndido e a montanha continuaria lá para quando voltasse na próxima vez. Mas, ao descermos o glaciar quase ao mesmo tempo, vimos um pequeno couloir que subia transversalmente rumo à crista do cume. O Cecílio, que escala há anos na região, nunca havia tentado e também não sabia de ninguém que houvesse escalado por esta via. Caminhamos em sua direção para poder avaliar melhor e não havia dúvidas, parecia possível chegar ao cume por esta canaleta. As condições de neve estavam um pouco melhores e, nas partes onde a neve estava mais fofa, prosseguimos por trechos de rocha, o que para mim, como treino para o Ama Dablan, uma montanha onde predomina a escalada mista, neve e rocha, era ótimo.
A canaleta nos conduziu a uma parede muito inclinada, de ao redor de 65 graus, que nos levou à longa crista do cume. Após sete horas de dura escalada, eu estava finalmente no afilado cume da Asa Esquerda do Condoriri, um sonho de 21 anos!!! De cima, a visão de todas as montanhas ao redor e do Lago Titicaca ao fundo!

Após mais um dia de descanso e das comidas deliciosas de nossa talentosa cozinheira Yolanda (tínhamos até um forno a gás na barraca refeitório!!) seguimos os quatro, Sergio, Fabi, Cecílio e eu para o Pequeño Alpamayo, uma das montanhas mais bonitas da Bolívia, com sua crista afilada levando a um cume a 5425 metros. Era a formatura do curso da Fabi e ela estava super feliz com o desafio que tinha pela frente. Nosso plano era o Sergio e ela fazerem a rota normal e eu e o Cecílio fazermos a via direta, uma parede de ao redor de 60 graus de 250 metros de altura. Como esta via direta tem a mesma exposição sul que a Asa Esquerda, estávamos receosos de que a neve estaria da mesma consistência, mas só havia uma maneira de ter certeza, indo até lá.
A escalada de aproximação inclui a escalada do Tarija que, a 5300 metros, em si já era uma conquista para a Fabi. De lá, uma descida de ao redor de 80 metros leva a um colo que a separa do Pequeño Alpamayo. Lá nossos dois grupos se separaram com o plano de chegarmos juntos ao cume pelas vias diferentes. Atravessamos o bergschrund por uma precária ponte de neve e escalamos a deliciosa parede que estava, presente dos deuses da montanha, com a consistência perfeita, as pontas dos nossos crampons e de nossos ice axes fincavam de maneira confortavelmente sólida na neve, permitindo que avançássemos rapidamente e com segurança. Quando chegamos à crista do cume, nos reencontramos com o Sergio e a Fabi, que estavam chegando no mesmo momento que nós. Nos abraçamos cheios de felicidade por cada um ter atingido seu objetivo. Depois de um piquenique com uma vista estupenda, descemos ao nosso campo base para uma merecida comemoração!
Em La Paz refizemos nossos planos. A Fabi tinha vontade de subir um 6000 metros e eu de refazer em condições melhores a Cara Oeste do Huyana Potosi, mas no final decidimos ir para a Ilhabela pegar uma praia por alguns dias antes da maratona que teríamos pela frente. A Fabi treinar para o Peak Lenin, em julho, e eu guiar 4 grupos na sequência: Kilimanjaro, Mongólia, Lenin e Elbrus e com a possível escalada do Matterhorn em uma semana de férias entre o Kili e a Mongólia.
A Cara Oeste do Huayna estará lá me esperando para um próxima visita a este incrível país!

 

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