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23/05/2010 – Sucesso!

veralbumeverestAs frias horas da madrugada passam lentamente e só de tempos em tempos escuto alguma novidade sobre o progresso da escalada da Andrea. Esta noite é a melhor desta semana e com isso mais de 100 escaladores estão tentando chegar ao cume. O grande número de pessoas faz com que todos demorem demais. As 7 horas saio no frio da manhã e para minha grande felicidade vejo o dia mais perfeito das últimas duas semanas. Céu azul sem um anuvem e sem vento algum. Caminho os 15 minutos até o acampamento da Andrea onde a Mara, uma americana que trabalha como base camp manager está monitorando o avanço de seu grupo. As 8 recebemos um chamado pelo rádio dizendo que o grupo da Andrea está já acima do Hilary Sep. Agora é questão de minutos. As 8:40 finalmente vem a confirmação de que todos estão no topo do Everest. Com os olhos cheios de lágrimas falo brevemente com ela e ela me diz que está bem, com os pés e mãos um pouco frios, mas, claro, muito feliz. Dou mil parabéns a ela e feliz volto ao meu solitário acampamento. Queria ter alguém para dividir esta emoção.  Após dois anos de treinos incessantes conseguimos nosso objetivo, ambos estivemos no ponto mais alto do planeta. Em mais algumas horas ela estará na relativa segurança do campo 4 e em dois dias estaremos partindo para Katmandu. De lá ela segue para 40 dias na Guatemala onde será alvo de intensa atenção da mídia. Andrea acaba de se tornar a primeira mulher centro americana a escalar o Everest. Eu seguirei para um aviagem de exploração com destino ainda não definido. As montanhas do Marrocos (Atlas), Irã, Kyrgistão??? Aina não sei, deixei para definir após o Everest. Mas, para onde quer que vá sei que será para alguma região montanhosa do planeta...

22/05/2010 – Despedida e aflição

Acordo com os gritos de alegria de alguma expedição. Olho no relógio e sao 5:55 e sei que os membros de alguma expedição chegaram ao cume do Everest. Agora estou do outro lado, estou no campo base enquanto alguem está lá em cima, a mais de três quilômetros no cume do mundo. Sorrio e dou mentalmente meus parabéns a quem quer que seja. Ainda está frio e apesar de não conseguir mais pegar no sono me deixo ficar no conforto do meu sleeping bag. As 7:30 o sol chega na barraca e saio para arrumar meus barris que serão levados nas costas de yaks para Lukla e de lá em avião a Katmandu. Chegarão antes que eu. Me lembro então de minha noite agitada. Ventou muito aqui no campo base e a barraca sacudiu violentamente por toda a noite. E eu acordei inúmeras vezes pensando em como estaria a Andrea no campo 3 dois quilômetros acima. As próximas 24 horas serão de muita aflição para mim. Desço para o café da manhã e meus companheiros estão agitados, se preparando para a descida para Katmandu. Nos despedimos com emoção e mais uma vez Greg, Rob e eu nos prometemos começar imediatamente a estudar tudo que seja relacionado a expedições ao Polo Sul. O fato de termos este plano deixa a despedida mais leve. Victor e Marco não estão interessados, mas sabemos que vamos nos reencontrar de alguma outra forma.

As 10 da manhã chamo por rádio o acampamento da Andrea e me informam que ela está acima da Yellow Band, que tudo está bem e que o vento, nosso pior inimigo, está suave. Situação ideal. Ela saiu com o down suit e se não tivesse nenhum vento estaria sofrendo com o calor. Ao meu redor tudo está sendo desmontado. Nossa barraca refeitório já está no chão. Muitas das barracas já não existem mais, apenas plataformas de rochas marcam sua existência. Dos 20 escaladores das 3 expedições apenas 7 estão na montanha, o restante se foi. Aqui no campo base hoje só eu. Almoço sozinho e volto a escrever. As duas da tarde capto uma ligação por rádio e fico sabendo que Andrea já está no campo 4 a 7950 metros. Dentro de 7 horas é a sua vez. Procuro mandar toda a energia que tenho dentro de mim a ela. Sei o que essas horas antes de sair para o cume significam. Solidão, apreensão, medo, ansiedade. Que tudo corra bem com você, meu amor!

Começo e ler a biografia de Ranulph Fiennes, o primeiro homem a chegar a ambos os polos. Suas experiências são tão brutais que comparado com o que ele passou Everest é brincadeira de criança. Isso é bom pois tira minha atenção da espera da escalada da Andrea. As 21 horas ouço pelo rádio que ela partiu rumo ao cume. O restante da noite passo acordado lendo e escutando o rádio que de tempos em tempos me trás algum novidade.

22/05/2010 – Recuperando as forças

Acordo tarde e em minha agenda não há nada para fazer. Mesmo que quisesse fazer algo não tenho forças. Com muito esforço consigo reunir energia para fazer a barba e tomar banho. Ao ver meu corpo após tantos dias me surpreendo com o quanto perdi de peso e mais do que tudo de massa muscular. Minhas pernas estão super finas e as costelas aparecendo. A sensação da água quente no  meu corpo é deliciosa, mas ainda sonho com um banho mesmo e não com esse balde e caneca que são nossos banhos aqui. Ao fazer a barba percebo que em algum momento tive um congelamento superficial da pele do queixo. Deve ter sido há alguns dias pois a pele já está descamando.

Passamos o dia na barraca refeitório conversando e a tarde tomo um pouco de coragem para arrumar minha barraca que está quase inabitável. Além de roupas sujas por todos os lados vejo que a parte esquerda da barraca está desabando com o derretimento do gelo sob o qual ela está armada. Mas, calculo, ela ainda se mantém em pé por mais 4 noites que é tudo o que preciso.

20/05/2010 – Final da expedição

Apesar de ter dormido duas noites no campo 2 acordo sentindo-me exausto, como se não tivesse descansado nada. São seis da manhã e já está completamente claro, sinal de que o verão está chegando. A idéia é sair o mais cedo possível, pois os dias tem estado quentes e meus níveis de energia caem muitíssimo com o calor. Mas, onde está a energia para sair do sleeping bag e enfrentar o frio da manhã de 6300 metros?

Nevou a noite toda e já saio da barraca com minhas botas duplas e todo o equipamento. Tomo um café da manhã rápido e começo a longa descida rumo ao campo base mil metros abaixo. Nunca o Vale do Silêncio mereceu mais este nome. Tudo está amortecido pela neve fresca e é muito cedo para que quem saiu do campo base esteja por aqui. Estou completamente sozinho e o único ruido é o da neve quebrando sob minhas botas. Paro para apreciar uma vez mais a maravilhosa paisagem ao meu redor. Me deslumbro com o que acabo de completar. Olho para trás e vejo os minúsculos pontos amaralos das barracas na parede do Lhotse e mais acima a Yellow Band e o Geneva Spur, obstáculos que acabo de superar. Mas, meus pensamentos estão todos em direção ao campo base e sigo rapidamente meu caminho. Apesar de rápido, procedo com cautela. Com a neve da noite anterior as cravasses estão quase cobertas e cair em uma delas agora, sozinho seria fatal. Cada vez que me deparo com uma dou um grande salto pois não sei onde elas começam ou terminam. Chego 50 minutos depois com segurança no campo 1 que é a imagem do abandono. Desde o começo da expedição que este campo não é usado, a maioria das pessoas preferindo ir diretamente do campo base ao campo 2. Pedaços de barracas precariamente presas por um ou dois pegs balançam furiosamente ao vento.

Coloco meus crampons e sigo cascata abaixo, minha última passagem, meu último obstáculo para a segurança do campo base. Lembro-me da história de uma das expedições do Bonington onde o base camp manager passou quase dois meses no campo base e no último dia da expedição pediu permissão ao Bonington para dar uma subida na cascata. Bonington que nesses 2 meses havia passado pela cascata inumeras vezes não viu problema algum, mas um enorme bloco de gelo se desprendeu e o manager morreu. Assim é a cascata, algo imprevisível. Não quero ter logo agora um acidente. O sol saiu e a manhã está lindíssima, o céu azul sem uma nuvem e nada de vento. De alguma maneira sei que Chomolungma não irá me matar. Escalei pelas razões corretas, ajudei sempre que pude e sempre que foi necessário. Procurei o mais que pude seguir o conselho do Lama Geshe Rimpoche de manter o coração puro. Sei que chegarei bem ao meu destino. Sinto que a cascata tem os seus humores e em algumas das vezes que passei por ela tive muito medo enquanto que em outras estava tranquilo. Logo de cara percebo que o caminho mudou muito desde que subimos a última vez poucos dias atrás. Estou escalando em algo vivo, mutável e cada vez que atravesso este labirinto de blocos de gelo estou percorrendo algo novo. O número de escadas aumentou drasticamente e das 16 do começo da expedição agora são mais de 30. A cada uma que atravesso sinto que estou mais próximo da segurança. Amei esta expedição, mas agora quero estar de volta ao campo base. Estou exausto e apesar de já estar mais de 500 metros mais abaixo, com mais oxigênio, cada passo me custa mais. O calor está me matando, mas não é seguro parar agora para beber o pouco de água que tenho ou para tirar um pouco de roupa. Estou no meio da pop corn, a mais instável das áreas da cascata. Tenho que seguir o mais rápido possível, mas minhas pernas não mais me respondem. De repente, todo o cansaço dos últimos 5 dias como que desaba sobre mim. Ao fundo vejo a pequena cidade do campo base e almejo estar lá. Agora tem inúmeras escadas duplas sempre mais instáveis. Passar pelos degraus onde as escadas estão amarradas uma nas outras é difícil. Estou sozinho, não posso cair. Se cair ficarei pendurado um bom tempo até que chegue alguem para me ajudar. Já estou desescalando há 3 horas e minhas pernas pesam como se fossem de chumbo. Finalmente chego ao final das cordas fixas e do perigo. Sobrevivi ileso a escalada do Everest! Com exceção da diarreia do dia do cume me mantive saudável por dois meses na montanha. Não tenho congelamento de extremidades como soube que metade de nosso grupo teve. Estou tão cansado....mas tão feliz.

Chego ao campo e abraço aos meus companheiros. Agora sim podemos comemorar. Estamos todos de volta do maior desafio de nossas vidas, realizamos nosso sonho, estivemos no ponto mais alto do planeta, achamos dentro de nós a energia necessária para superar cada um dos desafios e o fizemos com habilidade, paciência, espirito de grupo e generosidade. Creio que saimos desta experiência melhores seres humanos e nos conhecendo melhor. Uma grande amizade se solidificou entre nós e já começamos a planejar nossa próxima grande aventura, a travessia em skis rumo ao polo sul no verão de 2011. Não sabemos nada sobre o assunto, mas a idéia já tomou conta de nossa imaginação. Temos o mais importante, a vontade de fazer e essa energia que nos une.

Fatiamos os salames italianos trazidos exatamente para esta ocasião, abrimos as cervejas e passamos o restante da noite contando a recontando o que vivemos nos últimos dias. Em mais 36 horas nos separaremos, Victor, Marco, Rob e Greg vão para Gokyo e de lá Katmandu e eu esperarei aqui no campo base com o coração nas mãos até que a Andrea esteja de volta sã e salva. Serão dias difíceis para mim e sinto muito que não possa ter a companhia deles para que as horas passem mais depressa. Em mais um dia o campo base estará vazio. Quem já fez o cume estará a caminho de Katmandu e quem ainda não fez estará na montanha aproveitando o que será possivelmente o último período de bom tempo antes da chegada das monsões. Enquanto comemoramos escutamos terríveis trovões que sempre antecedem as nevascas que caem nesta região nos meses de verão. Vou dormir em minha confortável barraca torcendo para que os próximos três dias passem rápido e que tudo corra tão bem para a Andrea como foi para mim e meu grupo.

19/05/2010 – Reencontro com Andrea

Dormi 15 horas! Enquanto aos poucos tomo consciência de onde estou escuto alguém chamando o Victor. Olho no relógio e vejo que são 9 da manhã e estranho pois os planos do grupo eram de sair cedo. Subo até a barraca refeição e chego lá ofegante e extremamente cansado como se tivesse acabado de chegar do cume. Vejo minha saturação e está 71, bastante baixa. Peço para o Greg dar uma olhada nos meus pulmões, mas está tudo bem. Estou porém bastante desidratado e começo a beber. Despeço-me deles e volto a minha barraca onde fico dormitando mais algumas horas. Ao meio dia ouço a voz da Andrea chamando-me e nas próximas 4 horas ficamos conversando, abraçados, matando a saudades. Aos poucos vamos contando um para o outro o que aconteceu nos últimos dias tão repletos de emoção. Mais que tudo quero contar para ela como é o caminho, onde estão as dificuldades e o que aprendi nessas últimas 48 horas. Quero que ela saiba exatamante onde tomar mais cuidado, onde ir devagar e onde aproveitar para ganhar terreno mais rapidamente. Quanto usar de oxigênio em cada parte da montanha. Mais que tudo quero passar a ela o quanto esta montanha é perigosa na descida. O quanto é facíl se machucar em uma das descidas verticais de rocha na Geneva Spur e no Hilary Step. E o que significa se machucar nestes lugares onde um resgate é quase impossível. Quero que ela tenha dentro dela o mesmo matra que eu tive: cuidado ao colocar cada passada, cuidado ao colocar cada passada. Ela me escuta com atenção e sinto-me mais tranquilo. Atinjo o que queria com este dia extra aqui no campo 2. Meus companheiros já estão na segurança do campo base, mas sinto que valeu a pena ter ficado aqui. Com muita emoção nos despedimos e vejo ela se distanciar com o coração na mão. Se passarão cinco dias até que eu a veja novamente. E nesses cinco dias ela subirá ao topo do Everest.

Janto com os cinco membros da expedição do Henry Todd que estão esperando para que os sherpas que nos auxiliaram descansem no campo base para que eles também possam ter sua chance de cume, mas o clima entre eles é de frustração e desanimo. A cada dia que passa a monsão está mais próxima e se não partirem para o cume muito em breve possivelmente não terão outra chance. Logo após o jantar me despeço, lhes desejo a maior sorte do mundo e vou para minha desconfortável barraca gelada para uma noite sem sonhos.

18/05/2010 – Deixando a zona da morte

Finalmente as 10 da manhã estamos prontos para deixar o campo 4. Depois de tudo o que vivemos aqui, alegrias, desesperos, preocupações, estou como que vazio. Saio da barraca como um autômato, coloco meus crampons e começo a descida. Olho pela última vez para a triangular face, avisto o Balcony e o South Summit e vislumbro o cume. Não consigo estar feliz, estou muito cansado para isto. Sei que mais tarde a felicidade de ter alcançado um de meus maiores sonhos virá, mas agora não sinto nada, apenas uma grande vontade de sair deste lugar. Quero chegar vivo ao campo base e para isso tenho que buscar dentro de mim forças para que cada passo seja preciso. Não posso me dar ao luxo de relaxar, não agora, ainda não. A primeira parte do caminho até o topo do Geneva Spur é plano, mas mesmo assim avanço com cautela, clipado na corda fixa. Um escorregão aqui seria fatal, mesmo com a corda fixa. Vem então a descida do Geneva Spur e quando vejo o grau de inclinação da descida não acredito que tenha subido isto. Respito fundo, agarro a corda fixa com firmeza e começo a descer. Estou ainda a 8.000 metros e apesar do oxigênio a 3 litros por minuto tenho de parar a cada 20 metros para recuperar o fôlego. Estou totalmente concentrado. Não existe nada ao meu redor, apenas as rochas e os pequenos lugares onde coloco as pontas de meus crampons. Após meia hora estou em terreno mais amigável e posso relaxar um pouco. A descida da Yellow Band é menos complicada, mas agora um outro inimigo aparece, o calor. A variação de temperatura nesta montanha é uma coisa incrível. Quando sai da barraca estava um frio incrível, ao redor de vinte graus negativos. Agora o sol nos castiga com 30 positivos. Por sorte decidi sair sem o meu down suit, mas mesmo assim estou molhado de suor. Desço mais um pouco e avisto as barracas do nosso campo 3 e concentro todas minhas energias em chegar lá para poder descansar, tomar um pouco de água e tirar um pouco de roupa. Estou quase chegando lá quando sinto que meu crampon direito está se soltando. Estou em plena parede do Lhotse, 45 graus de inclinação e tenho que fixar o crampon. Perdê-lo aqui me deixaria em uma situação muito perigosa. Coloco o pé esquerdo fixo no gelo e de maneira muito desajeitada consigo fixar o crampon, mas neste processo infelizmente uma de minhas luvas desce em camera lenta a extensão da enorme parede de gelo. Lembro-me do desespero de quando isso aconteceu com a mochila da Andrea no McKinley. Mais tarde venho a saber que o Marco perderia quase no mesmo lugar sua máquina fotográfica com suas fotos de cume, uma perda muito mais séria do que a minha. Exausto chego no campo 3 e me desabo dentro de minha barraca. Me dou ao luxo de aumentar o fluxo de oxigênio para 4 litros, tiro todas minhas roupas e aos poucos vou me sentindo novamente humano. Em seguida vão chegando meus companheiros ainda mais cansados do que eu usando seus down suits. Descansamos por uma hora na esperança de que a temperatura melhore, mas quando retomamos a descida a temperatura continua a mesma. Deixo meu cilindro de oxigênio, agora quase vazio, no campo 3 e desço as íngrimes encostas de gelo que separam o campo 3 superior do campo 3 inferior. Sem oxigênio tudo fica muito mais difícil e de tempos em tempos tenho que parar para que as forcas retornem as minhas pernas. Novamente preciso usar todo o meu poder de concentração, pois um pequeno escorregão nestas encostas de gelo azul teria consequências muito serias. Agora falta pouco, apenas mais 300 metros de parede e estou na parte mais plana que leva ao campo 2. Nas encostas mais suaves desço usando apenas a fricção das luvas na corda, mas cansado como estou em algumas partes mais inclinadas resolvo rapelar o que leva mais tempo, mas é mais seguro. Finalmente as 3 da tarde desço a última parede e posso caminhar até o campo 2. Rob que saiu com um cilindro de oxigênio mais cheio do que o meu segue a minha frente impulsionado pelo ar mais rico. A 300 metros do acampamento minhas forças me abandonam completamente e peço a ele para usar por alguns minutos o oxigênio. Sento-me em uma rocha e de olhos fechados fico inalando profundamente até sentir minhas forcas voltarem. Após alguns minutos recomeçamos e minutos depois chegamos a barraca refeitório.

Antes do jantar consigo ter comunicação por rádio com a Andrea e ela me conta que vai subir ao campo 2 no próximo dia e decido então passar mais uma noite no campo 2 para poder encontrá-la. O restante do meu grupo seguirá para o campo base e a tentação de seguir com eles e com isso encerrar a minha expedição é enorme, mas tenho muita vontade de rever a Andrea e, mais do que isso, contar a ela o que aprendi nessas últimas 48 horas para que ela possa usar esse aprendizado para aumentar a segurança de sua escalada.

16 e 17/05/2010 – O dia que estive no Topo do Mundo

Apesar de tudo o que se diz de como é desconfortável a noite no campo 3, a minha foi surpreendentemente tranquila. Claro que não dormi mais do que uma hora a cada vez. Nesta altitude, 7300 metros, o sono é muito superficial. Mesmo usando oxigênio ao fluxo de meio litro por minuto acordava frequentemente. Também estava preocupado com o Greg que a cada instante gemia de dor. Como havia dado meu colchonete inflável para ele para que tivesse mais conforto, estava dormindo em cima de um fino colchonete diretamente sobre o gelo e meus pés estavam gelados a noite toda. Esperamos que o sol esquentasse nossas barracas para nos levantarmos, mas muito antes que isso já estávamos despertos envolvidos na interminável função de derreter gelo para poder nos hidratarmos para o longo dia que tínhamos pela frente. Na realidade o dia de cume começava aqui, no campo 3 a 7300 metros de altitude, 1550 metros abaixo. Hoje iríamos subir ao campo 4 a 7950 metros, passar lá no máximo 7 horas tentando ter algum descanso e de lá subir ao cume. Era como se pela manhã subíssemos um 8.000 metros como o Gasherbrun 1 ou 2, ou o Shishapagma, eles três apenas poucos metros mais altos do que o nosso campo 4 e daí, a tarde, escalassemos o Everest. Não conseguia deixar de pensar se seria capaz de tal feito. Sei que dentro de mim consigo buscar forças para coisas que a princípio pensava que não seria capaz, mas o tamanho da façanha que tinha pela frente abalava minhas convicções. Mas, como tudo até agora nesta expedição, tinha que pensar em cada etapa e não no todo que era muito intimidante. Então o trabalho agora era chegar ao campo 4, o famoso South Col ou Colo Sul.

Coloquei meu down suit, harness, botas duplas e crampons e comecei a longa subida até a Yellow Band, a faixa de rocha mais clara que atravessa a parede do Lhotse ao redor de 7500 metros de altitude. Nesta altitude, a parede do Lhotse é inclinada porém o gelo está coberto de neve e degraus foram cavados pelos que nos antecederam de modo que pude subir sem grande esforço até a Yellow Band. Estou agora com oxigênio com fluxo de 2 litros por minuto e isso ajuda grandemente. Passei a noite razoavelmente bem, estou descansado, saudável e me sinto forte. Com isso um grande otimismo me invade e finalmente sinto que dentro de menos de 24 horas estarei no cume do Everest. Essa simples certeza faz com que todos meus pelos se arrepiem. Desde que sai de Katmandu já se passaram 50 dias e agora, neste minuto, pela primeira vez sinto que posso realmente realizar meu sonho. Pela primeira vez vejo que estar no cume do mundo está ao alcance de minhas mãos.

Após uma hora de subida íngrime o caminho cruza para a esquerda e sigo em direção a Yellow Band. Agora já não é tão fácil, pois escalamos entre neve, gelo e rocha e é preciso mais concentração para não escorregar. A visão daqui é indescritível. Descendo diretamente abaixo de meus pés por 1000 metros está a parede do Lhotse. No meio desta longa rampa de gelo os pontinhos amarelos das barracas do campo 3. Mais abaixo, a direita, em um canto protegido do Vale do Silêncio, o campo 2. Um pouco mais abaixo se vê as poucas barracas do campo 1 e logo em seguida este enorme rio de gelo despenca no vazio da cascata de gelo!

O próximo obstáculo é o Geneva Spur que deste ângulo parece apenas a encosta de uma elevação de ao redor de 200 metros. Sei que da crista ao campo 4 são apenas meia hora de caminho plano. Com determinação inicio a subida que de um modo geral é por neve firme com alguns trechos verticais mas curtos de rocha. Tinha iniciado o dia as 8 da manhã e agora, a uma e meia estava prestes a chegar ao Colo Sul. Da crista sigo por entre um estreito e um pouco traiçoeiro caminho de neve e pedras soltas até que após uma curva me deparo com o famoso campo 4. Que decepção! Em todas as fotos que vi toda a extensão do South Col era coberta por neve, mas neste ano de pouco inverno nosso acampamento está entre pedras e lixo de inúmeras expedições anteriores. Se isso desagrada a vista, o que se ve de nossa barraca é deslumbrante. Finalmente posso ver minha rota de escalada ao cume. A Triangular Face levando 500 metros acima ao Balcony, um pequeno platô a 8500 metros de onde seguindo por uma estreita crista se chega ao South Summit, ou Cume Sul e de lá, passando pelo Hilary Step se chega ao Summit Ridge e finalmente ao cume. Mas, minha visão se desfaz rapidamente, pois logo após chegarmos o acampamento é envolvido por uma grossa camada de nuvens, o vento aumenta e começa a nevar. Dentro de nossa barraca nossas expressões refletem o que se passa em nossos corações. Não é justo, após tanto esforço, tanto sofrimento e na hora que podemos ver o nosso sonho se realizando uma cruel mudança de tempo nos faz ver a possibilidade de ter de dar a volta e descer até o campo base e esperar por uma nova janela. Será possível? São 3 da tarde e não podemos fazer nada a não ser esperar. O ideal seria que estivéssemos nos hidratando, tentando comer algo e até quem sabe dormindo um pouco. Mas, a incerteza nos paraliza. Quase não conversamos, apenas olhamos um ao outro com expressão vazia. Não é necessário conversar, sabemos perfeitamente bem o que se passa dentro de cada um. Eu me pergunto se terei forças para fazer tudo novamente. Descer ao campo base, esperar novamente por bom tempo, subir ao campo 2, fazer o mais difícil dos dias, do campo 2 ao campo 3, passar frio, exaustão construir dentro de mim novamente a esperança, o otimismo, a determinação necessária para chegar aqui novamente. As horas vão passando e como com toda má notícia aos poucos você vai se acostumando com o inevitável. O rádio não se silencia. Do campo 4 ao campo base buscando informações, buscando a última previsão de tempo que nos conte o que acontecerá nesta noite. Então magicamente, as 6:30 da tarde o céu se clareia e um lindo por do sol tinge de rosado o Lhotse. Em um frenesi de atividade colocamos os dois fogareros em fogo máximo para derreter gelo e começamos a preparar nossas mochilas. A barraca para 4 pessoas agora habitada por 5 mais mochilas, cilindros de oxigênio, nossas esperanças e expectativas, está um pandemônio. Pernas se misturam com braços e tubos de oxigênio. Marcamos a saída para as 21 horas na expectativa de estar no cume ao redor de 10 horas depois. Resolvo ir ao banheiro para evitar de ter problemas pela manhã, meu horário habitual enquanto que os outros resolvem tomar Imodium para inibir a atividade intestinal normal. Quando termino de fazer tudo que precisava me sento em um canto da barraca, fecho os olhos e medito por alguns minutos procurando acalmar minha mente que está agitadíssima. Finalmente o momento chegou. As nove em ponto saio da barraca, troco meu cilindro por um cheio, coloco os crampons e junto com Padawa, o sherpa que subirá comigo, parto rumo ao topo do mundo.

Logo ao sair da barraca vejo uma enorme linha de luzes subindo em direção ao Balcony.  Sei que vários grupos estão subindo hoje, mas a longa linha me assusta. O pesadelo de 96 está sempre presente quando por um número excessivo de escaladores uma grande tragédia aconteceu. Afasto esses pensamentos da cabeça e me concentro no trabalho a frente. Tento acalmar meu coração que bate descontroladamente. Sei que tenho que encontrar meu ritmo. A temperatura está confortável, estou forte e confiante. Sigo a longa linha, mas logo percebo que está demasiadamente lento para mim. Aproveito que o ângulo de subida é suave, me desclipo da corda fixa e ultrapasso pelo menos vinte escaladores. Isto me enche de confiança e sigo adiante. Algo porém começa a me encomodar. Minha barriga se comporta de maneira estranha e posso ouvir um monte de ruidos. Será medo? Emoção? Mas logo percebo que não. Que estou começando a ter uma diarréia. Será possível? Não, hoje não! De resto está tudo tão perfeito. A temperatura está ideal, a noite agora estrelada, nada de vento. Bom, nada a fazer. Continuo a subir ganhando metros com facilidade. Estou com 2 litros por minuto e com isso estou economizando oxigênio já que tenho 3 cilindros para usar durante a escalada e poderia estar com 3 litros por minuto. Após duas horas olho meu altimetro e estou a 8215 metros e comemoro meu novo recorde de altitude. Já estou 14 metros acima do Cho Oyu. As horas vão passando e tenho duas preocupações, a minha barriga e os raios que iluminam o céu ao sul de tempos em tempos. Parece que vem dos vales muito abaixo de nós, mas mesmo assim constantemente olho nesta direção para ver se há alguma mudança. Já minha barriga está cada vez pior com cólicas muito fortes e frequentes. Quando chego a 8400 metros não posso evitar mais. Me clipo a uma antiga corda fora da rota e efetuo a complicadíssima tarefa de evacuar a 30 graus negativos com um terço do oxigênio a nivel do mar e com várias camadas de roupas além da cadeirinha. Quase gelado retomo a subida e com felicidade vejo que ao chegar ao Balcony Victor e Greg ainda estão lá descansando. Retomamos a subida juntos. Agora faltam apenas 350 metros e tenho a certeza absoluta de que nada me impedirá de chegar ao cume. São 2 da manhã e fiz um tempo ótimo até agora. Em apenas 5 horas subi 550 metros. Aumento o fluxo de oxigênio para 3 litros por minuto e sigo pela escuridão apeans vislumbrando o que deve ser uma crista muito estreita. Dos dois lados vejo enormes precipícios que não sei mas imagino que são de milhares de metros, de um lado levando ao Vale do Silêncio e do outro ao Tibete. As 3 da manhã tenho um grande congestionamento a minha frente. Avanço a passo de tartaruga, mas é impossível ultrapassar. Qualquer escorregão aqui sem estar preso a corda fixa sigifica morte. Finalmente quem estava segurando a fila se senta ao lado do caminho para descansar e consigo ultrapassar. A minha frente tenho um trecho de rocha quase vertical que me deixa completamente sem fôlego. Já estou a 8650 metros. As 4 e meia da manhã olho para trás e vejo os primeiros sinais do amanhecer. Estou tão alto que o nascer do sol não está longe. As cólicas estão cada vez mais intensas. Sei que terei de parar novamente, mas tento adiar o mais possível. Meia hora mais tarde acontece o espetáculo que estava esperando com tanta antecipação, o sol nasce e o Everest é refletido nos vales abaixo na forma de uma perfeita pirâmide. Dou um passo e paro para admirar este lindíssimo fenômeno que já havia presenciado em outras escaladas. As 6 da manhã chego ao South Summit. Estou a apenas 150 metros verticais do cume, mas as cólicas estão tão fortes que sou obrigado a parar mais uma vez. Talvez por causa da dor, talvez por causa da confusão mental desta altitude fico 10 minutos sem luvas e quando novamente me visto já não sinto nada nas mãos. Estão completamente adormecidas. O Padawa, que estava um pouco atrás, vendo o que eu tinha feito grita comigo que eu não poderia ter ido ao baneiro alí. É muito perigoso, grita ele comigo. Mas, é muito tarde para repreensões. Tento reaquecer minhas mãos, mas por alguns minutos penso que é tarde demais. Porém, aos poucos o sangue comeca a voltar e a dor é quase insuportável. Estou ofegante por ter estado 10 minutos sem oxigênio e gelado. Padawa coloca o máximo fluxo de oxigênio, 6 litros por minuto, e aos poucos vou me aquecendo e recuperando o fôlego. Passados 15 minutos recomeço a escalada, mas a minha frente está o Hilary Step, uma seção de rocha quase vertical com 10 metros de altura. Sou obrigado a tirar as mittens e colocar luvas mais finas para poder ter mais agilidade na rocha. Escalo, mas mais uma vez estou exausto e tenho que ficar alguns minutos parado para que minha repiração volte ao normal. Olho para cima e avisto o cume. Estou na foto que tantas milhares de vezes admirei nesses 20 anos que venho para a região do Everest. A crista do cume com suas lindas curvas de gelo contrastando com o céu mais azul do mundo. Cheio de uma nova energia cruzo os poucos metros que me separam do cume. Lá esta Greg vindo em minha direção com seu generoso abraço, Marco sempre sério, mas de uma amizade constante, Rob com seu bonito sorriso e Victor me recebendo. Eles estão prontos para descer, só estavam esperando por mim. São 8 da manhã do dia 17 de maio de 2010 e eu estou no topo do mundo! Tiro as tradicionais fotos, olho deslumbrado ao meu redor, pego algumas pedras do cume e antes mesmo que perceba já estou iniciando a longa descida. O tempo já está começando a mudar, uma fina nuvem de neve cobre o ar e a previsão é de ventos muito fortes a tarde. Quero ficar mais tempo, quero sentar e observar tudo com calma, quero agradecer ao mundo, aos meus amigos, a Chomolungma a oportunidade de ter chegado aqui. Mas, não posso. A subida é apenas metade do caminho. Vou até o altar e deixo o cartão postal que o Lama Geshe me deu além de duas pequenas ilustrações das Taras, divindades femininas budistas que representam compaixão. Agradeço a Chomolungma pela permissão de ter chegado lá. Olho para o Nepal de um lado, para o Tibete do outro, viro as costas e inicio a longa e árdua jornada rumo ao campo base três quilômetros e meio verticais abaixo. Mesmo com as duas paradas e com as fortes cólicas cheguei ao cume em menos de 11 horas e assim que começo a descer me deparo com uma enorme fila de escaladores ainda subindo. No Hilary Step tenho de ficar meia hora esperando por uma chance de descer. Desescalar estas partes de rocha íngrime cansado como estou é arriscado e tomo todo o cuidado para colocar cada pé. No South Summit troco meu último cilindro de oxigênio e sigo a 4 litros por minuto. Calculo que terei o suficiente para chegar no campo 4. O céu está agora completamente nublado, mas o vento que havia sido previsto ainda não se manifestou. Perco altitude rapidamente e no Balcony reencontro meus amigos. Divido meu último meio litro de água com o Greg e o Marco. Assim como eles tenho uma bola na garganta e cada vez que engulo saliva é como se estivesse engolindo fogo. O pequeno gole de água não alivia, mas sei que em breve, muito em breve tudo terá acabado. Sigo em frente só pensando na barraca no campo 4. A neve derreteu com o calor do sol e descer vira um suplício. A cada 10 passos escorrego e acabo sentado na neva fofa. Mesmo assim sigo montanha abaixo o mais rápido que a segurança permite. Ao meio dia me jogo dentro da barraca e assim deitado posso pela primeira vez me congratular pelo que atingi. Após muitos e muitos anos de sonhos cheguei ao topo do Everest. Sou o sétimo brasileiro a fazê-lo e o mais velho. Mas, isso é apenas estatística. Não escalo por números e sim por que amo as montanhas e por criar este tipo de ligação que criamos em nosso grupo nesses dois meses. Isto é o que realmente fica. No Cho Oyu foi assim e agora no Chomolungma também.

As próximas horas passam sem que eu perceba muito bem. A felicidade misturada com a exaustão faz com que eu me deixe ficar. Marco assume a tarefa de derreter gelo e preparar bebidas. O sol da tarde aquece a barraca e todo meu corpo pesa uma tonelada. Poderia ficar assim por dias. Mas, as 5 da tarde somos brutalmente tirados de nosso estado de relaxamento por uma chamada pelo rádio dizendo que dois dos membros da equipe do Kenton que nos últimos 3 dias tem nos acompanhado, Bonita, uma inglesa de 22 anos e Rick, um médico americano de 54 anos, dois dos mais rápidos escaladores estão ainda no Balcony. As primeiras informações que chegam são muito confusas, mas aparentemente Bonita não consegue mais se locomover e está bastante incoerente. Em choque acompanhamos a comunicação por rádio entre eles, o seu guia Kenton e o campo base. Eu e Greg conversamos e mesmo com essas poucas informações decidimos que o melhor é tratar como edema cerebral causado por altitude e recomendamos injetar 8 mg de dexametazona. Do campo base vem a orientação de enviar cinco sherpas ao Balcony com garrafas de oxigênio e líquidos. Assim como nós, os sherpas estão exaustos. São fortíssimos e naturalmente aclimatados, mas acabam de descer do topo do Everest que fizeram com uma só garrafa de oxigênio e carregaram outras duas para seus clientes (nós). Mas, heroicamente saem de suas barracas e voltam a subir a montanha. Levam também o kit de medicamentos de dia de cume do Greg para que eventualmente o Rick possa usar. As horas passam rapidamente sem que possamos nem pensar em dormir. Já estamos acordados há 40 horas, mas temos que começar a fazer preparativos para quando eles sejam trazidos para o campo. O Greg e o Victor se preparam para sair ao encontro deles assim que tenham baixado um pouco mais. O frio está terrível e eles colocam tudo o que tem além de hand a feet warmers. Eu assumo a produção de água quente colocando os dois fogareiros a funcionar. Rob está com snow blindness, cegueira das neves, uma afecção temporária, mas muito dolorosa da córnea e não pode ajudar em nada. Envolvido em seu sleeping bag e com óculos escuros na barraca escura parece um velho de cem anos. As duas da manhã Victor e Greg saem e só as 4 ficamos sabendo que as duas vítimas estão nas suas barraca e aparentemente em estado controlado. Não tem congelamento de extremidades e Bonita está coerente. Eles voltam para nossa barraca exaustos e eu continuo minha tarefa de preparar mais líquidos para hidratar a todos nós. Neste meio tempo porém, mais uma vítima aparece.  Anita é uma húngara muito forte que já atingiu o cume do Everest no ano passado e agora está tentando sem oxigênio. Ela está na expedição do Henry Todd que está associada a nossa expedição também. A meio caminho do cume ela percebeu que não seria capaz de chegar sem oxigênio, mas nesta altura tinha gasto muito de suas reservas. Chegou ao cume e resolveu descer diretamente ao campo 2, mas a caminho começou a apresentar sintomas de HAPE, edema pulmonar de altitude. Por sorte estava acompanhada por Rob Casley, um dos guias do Henry Todd e médico. Com o coração nas mãos acompanhei pelo rádio os sinais de piora progressiva. Mas, por sorte, também ela apresentou melhora quando chegou ao campo 2 embora tivesse de ser reagatada por helicóptero do campo base no dia seguinte.

O dia amanheceu sem que eu tivesse dormido um minuto sequer. Duas noites em claro, 1500 metros de escalada ao cume e 900 metros de descida ao campo 4. A felicidade de ter chegado ao cume do Everest se perdeu no meio de tudo isso.

15/05/2010 – Do campo 2 ao campo 3. A caminho

Relativamente descansados partimos as 7 da manhã para o que sabíamos iria ser o dia mais duro da expedição. Já tinha estado no campo 3, mas na parte inferior dele. Nosso acampamento fica 200 metros acima e de qualquer forma, a aclimatação ganha naquela subida provavelmente já havia sido pelo menos parcialmente perdida com os 20 dias no campo base ou abaixo em minhas duas descidas para recuperação. Além disso, naquela subida estávamos com mochilas leves ao contrário desta vez quando estava com 15 quilos nas costas. Do campo 2 ao campo 3 superior são 1000 metros de diferença de 6350 a 7300 metros. Apesar de tudo, me sentia forte e ganhei os primeiros 400 metros que separam o campo a base da parede do Lhotse sem maiores problemas. Comecei a subir a parede que agora tinha um pouco mais de neve do que da última vez, mantendo um ritmo bastante forte. Mas, aos poucos comecei a sentir que o Greg que estava na minha frente estava diminuindo seu ritmo. Pensei até em ultrapassá-lo, mas quando perguntei a ele se tudo estava bem vi em seu rosto que algo estava seriamente errado. Para meu desespero me disse que estava com cólica renal, uma das mais fortes dores que alguém pode ter. Não podia acreditar, cálculo renal na parede do Lhotse. Para ele a expedição havia terminado, ou assim pensava eu. Ele tirou de dentro de sua mochila seu kit médico, preparou uma seringa com um forte analgésico e se aplicou diretamente na coxa, por sobre sua roupa mesmo e disse que iria prosseguir. Disse que já tinha tido isso antes e que queria 12 horas para ver se melhorava. Eu lhe disse que isso era loucura, argumentei que os sherpas já haviam descido rumo ao campo 2 (os sherpas nunca dormem no campo 3) e que se ele piorasse um resgate a noite sem sherpas seria quase impossível. Mas, ele não se deixou convencer. Com uma máscara de dor em seu rosto prosseguiu vagarosamente parede acima. Victor desceu para encontrar-nos e me orientou para prosseguir já que ele seguiria com o Greg.

Mantive um bom ritmo até a parte inferior do campo 3, mas aí minhas forcas me abandonaram. Os últimos 200 metros de gelo azul inclinado foram um puro martírio. Cada passo era arrancado a força das minhas reservas e só a completa falta de opção me fazia seguir um pouco mais. Após 8 horas de escalada finalmente cheguei ao campo 3. Greg chegou mais de uma hora depois completamente exausto, mas mais uma agonia o esperava. Precisava urinar e sabia que ao fazê-lo iria eliminar o cálculo. Por suas experiências anteriores sabia o quanto isso era dolorido. Junto com o cálculo de 3mm saiu uma grande quantidade de sangue e coágulos. Arrumei a barraca o mais confortávelmente possível para ele com meu colchonete inflável e ambos praticamente desmaiamos de cansaço com nossas máscaras de oxigênio a 0,5 litro por minuto.

14/05/2010 – Descanso no campo 2

O dia transcorreu sem muitas novidades apenas com eventuais contatos por rádio com o campo base para receber a atualização nas previsões do tempo. Ainda não sabíamos se este ciclo seria apenas mais um de aclimatação ou se realmente iríamos para o cume. As palavras para descrever essa janela pelos dois serviços metereológicos que usávamos ainda resonavam em nossas mentes. Um descrevia a janela como perigosa e o outro como estreita. Victor se comunicava constantemente com Henry Todd no campo base e as horas passavam sem que alguma conclusão fosse chegada. A responsabilidade na mão deles é enorme. Se decidem abortar a tentativa de cume e outros grupos chegam lá sem problemas podem desperdiçar a única oportunidade da temporada. Se por outro lado decidem subir e o tempo se torna mal com ventos fortíssimos a chance de acidentes aumenta sigificativamente.

De nosso lado tentávamos não colocar muita esperança. Amanhã desceríamos ao campo base e alguns dias depois subiríamos novamente para fazer a tentativa ao cume. O grupo da Andrea não havia subido e estava apostando na janela do dia 22. O mesmo nós também podiamos fazer. Ainda tínhamos uma semana pela frente para esta nova janela. Tinhamos tempo de descer, descansar e tornar a subir. Assim eu tentava pensar para não me decepcionar.

Mas, as cinco da tarde fizemos uma reunião e o Victor nos disse que se estivessemos dispostos a tentar, amanhã poderíamos subir ao campo 3! Claro que concordamos e saimos para preparar nossas mochilas para nossa chance de chegar ao cume em menos de 60 horas.

13/05/2010 – Aclimatação ou cume?

Ainda não sei o que acontece comigo em relação a altitude. Já são tantos anos que passo mal quando passo dos 5000 metros e já pensei em tantas coisas que já nem sei nem mais no que pensar. Já estou em altitude há quase dois meses e mesmo assim esta noite não dormi um minuto por causa de dor de cabeça. Na próxima vez que for para altitude vou levar algum remédio para enxaqueca, pois costumava ter quando era médico e o que tenho agora é muito similar. De qualquer forma, quando ouvi a voz do Victor nos despertando a uma da madrugada já estava rolando no meu sleeping bag desde as 8 da noite quando tinha ido para minha barraca. Já com a mochila pronta desci para tomar café da manhã e as duas já estávamos a caminho do campo 2.

Fazia já tanto tempo que não colocávamos os pés na montanha, dezesseis dias, que me sentia como que se fosse a primeira vez que enfrentava a cascata e as suas precárias escadas. Logo percebi que este dia seria uma tortura. No dia anterior tinha subido 1500 metros, não tinha descasado nada e agora tinha 1000 metros de sobe e desce pela frente. Cheguei ao campo 1 exausto e decidi que precisava de um descanso, uma pequena siesta para ser capaz de chegar ao meu destino. Victor se prontificou a ficar comigo enquanto Greg, Rob e Marco seguiam ao campo 2. Bebi um pouco de água, comi duas barras energéticas e dormi por uma hora. Despertei reenergizado e seguimos então por mais duas horas ao acampamento. Jantei super cedo e dormi mais de 12 horas.

12/05/2010 – De volta ao campo base

Baseado na minha experiência anterior desta vez eu e a Andrea decidimos sair mais tarde, pois sabíamos que não demorariamos muito para ganhar os 1500 metros que separam Pamboche do campo base. Acordamos na hora que acabou o sono, tomamos o café da manhã com calma e as 10 da manhã estávamos começando o conhecido caminho. Apesar dos dias que passei a 3900 metros, desta vez notei que não estava tão recuperado como da última vez. Com tristeza notei que aquele tinha sido o meu pico físico e que ter ido ao cume após aquele descanso teria sido o ideal. Não importa o que se faz, a permanência prolongada em altitude acaba fazendo com que o corpo se deteriore e o caminho ao campo base me custou muito mais.

Chegamos ao campo base as 16;30 e por causa do cansaço estava torcendo para que os planos tivessem mudado e que tivéssemos um dia de descanso antes de subir. mas o que ouvi foi até o contrário. O despertar seria a uma da manhã e as duas estaríamos a caminho. Me despedi da Andrea não sabendo muito bem o que iria acontecer, se estava subindo para aclimatar ou para a tentativa ao cume e fui dormir. Ela voltou ao campo dela para mais vários dias de descanso antes de uma possível tentativa ao redor do dia 22 ou 23.

11/05/2010 – Chamado de volta ao campo base

Estava na minha rotina de não fazer nada quando recebi um torpedo no meu telefone por satélite dizendo que no dia seguinte partiríamos para o campo 2 provavelmente para nossa tentaiva ao cume. Será que realmente iria acontecer? Ainda estava muito claro em minha memória a última vez que isso tinha acontecido. Estava aqui mesmo em Pamboche e abreviamos nosso descanso para voltar ao campo base para partir para o cume. No fim, tudo foi cancelado e ficamos dias e mais dias no campo base. De qualquer forma voltei a preparar minha mochila e fui dormir cedo.

07/05/2010 ao 10/05/2010 – Mais um descanso em Pamboche

A previsão do tempo não mostrava a possibilidade de uma nova janela nos próximos muitos dias e para mim estava muito claro que ficar no campo base com a altitude de mais de 5.000 metros, a comida ruim e sem nada para fazer só prejudicaria minhas chances de estar bem preparado para o grande dia. Além disso, os dias que tinha passado em Pamboche na semana passada haviam sido tão fantásticos para minha saúde e para minha moral que contemplava mais uma descida com bastante entusiasmo. Meus companheiros, porém haviam decidido que não queriam mais descer. Para eles o esforço de caminhar 20 quilômetros e descer 1500 metros não compensava o ganho. Estavam felizes em fazer boldering todos os dias e passar o restante do tempo na barraca refeitório conversando. Minha decisão foi tomada quando o grupo da Andrea decidiu também descer. Após o almoço eu e a Andrea partimos rumo a Dimboche a 4300 metros. No dia seguinte fomos para Pamboche onde ficamos por três dias.

06/05/10 – Passando um dia com a Andrea

Miraculosamente o meu programa coincidiu com o da Andrea por um dia. estamos ambos no campo base sem muito o que fazer e aproveitamos esta rara oportunidade para ficar juntos o dia todo. Por isso decretei dia livre. Meus companheiros de grupo foram escalar em rocha, mas eu e a Andrea nos deixamos ficar no calor da barraca namorando, conversando e curtindo a companhia um do outro.

05/05/10 – Brincando no gelo

Com a longa espera que temos pela frente decidimos fazer algo todos os dias para manter o fisico ativo mas mais do que isso manter a moral alta. Passar dias e dias dentro da barraca refeitório não nos faria bem. Saimos depois do café da manhã para o glaciar aqui próximo e escolhemos o mais alto dos penitentes, uma torre de 25 metros quase vertical e fixamos uma corda se segurança (top rope) e ficamos algumas horas praticando escalada técnica em gelo. A parte mais divertida foi escalar a parede apenas com os crampons, sem os ice axes. Isso exige uma precisão muito grande na colocação das pontas frontais dos crampons e muito equilíbrio.

Ao meio dia ouvimos pelo rádio que nove sherpas e um guia do Ruissel Brice haviam chegado ao cume e fixado as cordas até lá. As portas do cume estão abertas. Perdemos esta oportunidade pois realmente não acreditávamos que as cordas estariam prontas a tempo e agora só nos resta esperar pela próxima.

Depois disso voltamos ao campo e passamos a tarde conversando.

04/05/10 – Tensão no grupo

Acordei cedo e fiquei por duas horas tentando decidir o que fazer. Quando fui tomar café da manhã tinha realmente decidido que quero subir e passar duas noites no campo 2 e tentar mais uma vez tocar o campo 3. No café da manhã coloquei minha decisão e mais uma vez choveram argumentos de porque não deveria fazer isso, mas ao final o Victor concordou que se sinto assim tão fortemente a necessidade de fazer mais um ciclo ele tentaria me ajudar, pois é claro, não daria para eu subir sozinho. Cruzar a cascata sozinho é um risco inaceitável. Me prometeu falar com mais gente e ver se tem alguem mais interessado em seguir comigo. Ele e o grupo decidiram que ficarão aqui no base mesmo. Eles sairam para uma caminhada de 4 horas e eu fiquei no campo para tomar um banho, fazer a barba e encontrar a Andrea que está descendo do campo 2 após 5 noites lá em cima.

No final do dia vieram duas informações que me fizerem ter de desistir dos meus planos. A primeira é que realmente não havia ninguem para subir comigo e a segunda é que o campo 2 está vazio. Todos os sherpas e o pessoal da cozinha desceu para Pamboche para descansar. Com isso tive de me conformr com a idéia de que provavelmente não terei outro ciclo antes do ciclo do cume. Agora é orcer para que tenha uma janela logo para que eu não perca a aclimatação que consegui nos nossos dois ciclos.

03/05/10 – Jogando cartas e pensando

Após 4 dias de nevascas hoje amanheceu com tempo limpo e quase sem vento. Logo que sai da barraca olhei em direção a parede do Lhotse e percebi que era o dia ideal para a Andrea subir até o campo 3. Ontem teria sido o dia desta subida, mas com a quantidade de neve que caiu sabia que tinham postergado a subida. Depois, pelo rádio, fiquei sabendo que era isso exatamente o que tinha acontecido.

Passei quase todo o dia na barraca refeitório jogando cartas com o Marcos e o Rob, mas enquanto jogava parte de minha mente estava ocupada com algo muito mais sério. De todos de nossa equipe sinto que eu sou o que tenho mais problemas em me aclimatar. Abaixo de 5000 metros sou sem dúvidas o mais forte de todos, mas acima do campo base meu desempenho cai sensivelmente. E o fato de já estarmos fora da montanha por mais de uma semana começa a me preocupar. Algo dentro de mim me diz que não haverá cume antes do dia 20 de maio e posso ver que a decisão de fazer mais um ciclo de aclimatação será adiada e adiada. Provavelmente para a amioria das pessoas isso não é um grande problema, mas para mim com meu histórico de aclimatação lenta, não me sinto confortável em passar mais do que 15 dias fora da montanha. Passei o dia pensando nisso e no final da tarde já tinha decidido que gostaria de subir para mais um ciclo. Após o jantar comentei isso com o Victor e com o grupo e todos se opuseram radicalmente. Eles sentem que isso não é necessario e que é um grande gasto de energia. preferem ficar por aqui e fazer alguma atividade todos os dias, pequenas caminahdas, um pouco de escalada em gelo ou em rocha.
Fui dormir pensando nisso. De um lado tem o que sinto que seria o mais correto para mim. Meus anos na montanha me dizem que mais uma subida compensará em termos de aclimatação o que eu perderei em termos de energia gasta. Por outro, é muito ruim dividir o grupo e a pressão para que eu não faca isso é enorme.

02/05/10 – Dia de incertezas e desapontamento

Não há maneira de o sono a 5300 metros ser da mesma forma que a 3900. Mesmo aclimatado como estou a esta altitude o sono aqui é supercificial e acordo várias vezes durante a noite. Também o apetite mais uma vez desapareceu e as refeições são exercícios da mente sobre o corpo. Sei que tenho que comer então como, mas sem vontade.

Durante toda a noite pude ouvir o barulho da neve caindo incessantemente e pela manhã a barraca estava soterrada por mais de 30 cm de neve fresca. Ao me dar conta da situação, claro, o primeiro pensamento foi como ficariam nossos planos com este novo fator. No café da manhã o Victor não sabia dar uma posição definitiva, preferia esperar até o meio dia quando teria mais uma previsão de tempo. O tempo estava completamente encoberto e durante a manhã continuou nevando, embora com menos intensidade. Há mil maneiras de ver isso. Por um lado a parede do Lhotse pode ficar muito mais fácil com neve, se esta neve se consolidar. Por otro, o perigo de avalanche é maior e a trilha mais pesada se tivermos neve fresca lá para cima. De qualquer forma prosseguimos com nossos planos e pela manhã fizemos o treinamento com as máscaras de oxigênio que neste ano tem novidades. Temos agora reguladores inglêses e não mais os russos que tínhamos no Cho Oyu. Eles parecem mais confiaveis e de leitura mais fácil embora pesem 200 gramas a mais. Aproveitamos para fazer o ajuste fino no restante do equipamento e deixar tudo pronto para amanhã, mesmo sem saber se subiremos ou não. Agora existem tantos "ses". Vamos amanhã se pela madrugada o tempo estiver bom, se a previsão não for de mais nevascas, se os sherpas do Russel Brice cumprirem o que prometeram de fixar as cordas até o cume no dia 4, se nossos acampamentos 3 e 4 forem montados (ainda não estão). Como é duro lidar com todas estas incertezas! Agora que psicologicamente já me preparei para subir será muito duro ter de voltar atrás. Esta semana que tenho pela frente será uma das mais duras física e psicologica da minha vida e é muito difícil ficar nesta incerteza.

As 5 da tarde veio a confirmação de que realmente não há certeza de que as cordas estarão fixas a tempo para que possamos usar a janela de bom tempo. está tudo muito incerto e o Victor preferiu postergar nossa tentativa de cume. Ah, desapontamento! O clima em nosso grupo ficou decididamente sombrio e acabamos indo para nossas barracas. Agora só resta esperar pela nova janela e não temos idéia de quando ela chegará.

01/05/10 – De volta ao campo base, mas recuperado

Acordamos as 5 da manhã, pois prevíamos uma longa viagem de volta ao campo base. Se demoramos 7 horas para descer provavelmente demararíamos 9 ou 10 para subir afinal são 1400 metros de desnível. O nascer do sol foi glorioso e embora estivesse surpreendentemente frio quando iniciamos a caminhar podia prever que seria um dia quente. De início combinamos que cada um faria seu ritmo e eu coloquei o ipod e ao som de The Who, primiero o Tommy de minha adolescência e depois Quadrofenia, comecei a caminhar forte e em uma hora já estava em Periche tendo ganho 300 metros. O restante do grupo ficou para trás e não vi razão de esperar por eles. As músicas se sucederam e os vilarejos também e logo percebi que chegaria de volta ao campo base em metade do empo que tinha previsto. Essas 3 noites em Pamboche foram ainda mais mágicas do que imaginava. Estava me sentindo tão forte que mesmo nas subidas íngrimes eu tinha que diminuir muito pouco meu ritmo. Só parei duas vezes para tomar refrigerantes e após 5 horas e meia estava no acampamento da Andrea para saber noticias dela. Não podia acreditar, tinha feito a subida mais rápido do que a descida e não me sentia cansado!

Fiquei uma hora no acampamento da Andrea conversando com a Mara, a base camp manager e me inteirando das últimas notícias. A Andrea continuava no campo 2 e no dia seguinte planejava ir até o campo 3. Consegui conversar um pouco com ela por rádio e ela me disse que estava super bem apesar de que sua tosse continua. Ela precisa descer por alguns dias para se livrar dela. A Mara também me contou que uma avalanche fez a primeira vítima da temporada, um húngaro morreu do lado tibetano. Na cascata de gelo não houve mudanças radicais. Teve uma grande avalanche na parede do Nuptse, mas não chegou a modificar a rota de subida. Fui então de volta ao meu acampamento e fiquei na barraca que estava quentinha com o sol da terde esperando meus companheiros chegarem. Eles tinham decidido caminhar lentamente para pouparem suas energias e só chegaram 3 horas mais tarde.

Fizemos então mais uma reunião para analizar as novidades, mas tudo leva a crer que os planos continuam os mesmos, descansar amanhã dia 2 e subir rumo ao cume dia 3. Fui para a barraca logo a pós o jantar. Agora todos os pensamentos e energias estão dedicados ao cume.

30/04/10 – Ócio absoluto

Mais uma vez dormi mais de 12 horas e com um sono extremamente profundo. Acordei as 8 da manhã, lavei mais algumas roupas, arrumei meu quarto e decidi fazer uma siesta matutina. Acordei novamente as 10:30 mais descansado do que nunca. Passamos o dia na expectativa de que mais uma mudança ocorresse, mas ela nunca veio e nos prepramos psicologicamente para voltar ao campo base. Como eu tinha comigo uma máquina de cortar cabelo decidimos todos cortar o cabelo bem rente e fazer um time de semi carecas já que nossa expedição nem nome tem. Quando nos perguntam a que expedição pertencemos sempre ficamos um pouco perdidos em como responder.

Mais uma vez fui deitar cedo para aproveitar os últimos momentos de oxigênio abundante. A partir de amanhã terei pela frente uma subida de 5000 metros em basicamente 5 dias, 1000 metros por dia! Dá medo até de pensar...

29/04/10 – A cada dia uma mudança

Acordei 13 horas depois sem saber muito bem o que tinha acontecido. Com certeza, este foi o melhor sono em mais de um mês. Enquanto acordava pensava que estava na montanha já há 34 dias e que tinha ficado 25 dias acima de 5.000 metros, ou seja, a uma altitude incompatível com vida permanente. Os efeitos se faziam sentir. Quando fui tomar banho notei que minhas pernas tinham afinado e que com certeza tinha perdido peso.

Tomei café da manhã com calma e depois saimos para mais uma visita ao Lama Geshe Rimpoche para renovar suas bençãos. Ele recebeu-nos com seu sorriso habitual, me fez algumas perguntas em seu nepalês quebrado (ele é tibetano e fala pouco nepalês) que tentei responder em meu nepalês também quebrado. Ele então iniciou suas preçes e uma coisa estranha aconteceu. Fechei os olhos e me concentrei no suave e monótono entoar dos mantras. Subitamente visualizei várias figuras extremamente sinistras, horrorosas, irreais aparecendo em frente a mim e em seguida desaparecendo uma após a outra e ao final desta sequência apareceu Manjushiri, o bhodisatwa da sabedoria. O que me surpreendeu nisso tudo foi o fato de que eu tenho uma dificuldade enorme em visualizar coisas e desta vez as imagens eram muito claras. Sai de lá pensativo, mas de uma certa maneira feliz com o que tinha acontecido. Interpretei como uma mensagem de meu inconsciente para que me dedicasse com mais energia em adquirir sabedoria para poder tomar decisões acertadas e só assim meus fantasmas interiores desapareceriam.

O restante do dia foi gasto em agradáveis tarefas como lavar todas minhas roupas, arrumar meu sistema de comunicação via satélite, rever minha correspondência e simplesmente deixar-me ficar na agradável sala de refeições do lodge conversando com meus amigos. Tudo o que fiz teve uma qualidade diferente, mais relaxada, mais tranquila por causa do oxigênio. Para quem nunca passou períodos prolongados deprivado deste elemento vital não sabe o quanto cada movimento sem ele custa. Já disseram que no Everest apenas viver custa e concordo 100% com isso. E isto fica ainda mais claro quando se baixa 1000 metros. De repente tudo funciona melhor. Temos mais apetite, dormimos melhor, aquela coriza persistente e aquela tosse irritativa da noite para o dia desaparecem sem até que a gente perceba. Quando notamos elas ja não estão. Pura mágica!

A noite porém, recebemos uma comunicação pelo satélite dizendo que as últimas previsões de tempo indicam que dia 6 de maio será um dia de pouco vento e com grande possibilidade de cume. Fizemos uma nova reunião, recontamos os dias e decidimos abreviar nossa estadia aqui em Pamboche. Dia 1 de maio estaremos de volta ao campo base para descansar um dia e dia 3 iniciamos o que esperamos ser nossa escalada final rumo ao topo do mundo. Sentimentos extremamente contraditórios se debateram dentro de mim ao ouvir as notícias. Por um lado me ressenti de ter de cortar este descanso que tanto está me fazendo bem. Contava com 4 noites aqui e senti uma pena enorme de não poder tê-las. Por outro lado, como não ficar feliz? Nunca pensei que pudessemos ter uma chance de cume antes da segunda quinzena de maio, provavelmente no final do mês e agora estamos contemplando subir na primeira semana! E mais ainda, se por alguma razão não conseguir o cume no dia 6 ainda posso confortavelmente ter a chance de uma segunda tentativa apos um bom período de descanso.

O grupo ficou assistindo mais um dvd mas eu preferi ir dormir muito cedo para aproveitar cada minuto de repouso de qualidade que tenha aqui em baixo.

28/04/10 – As delícias do oxigênio

Planejamos sair as 8 da manhã, mas as 10 continuávamos sentados na barraca refeitório. O dia estava lindo, o sol brilhando e nada de vento. Um tempo agradabilíssimo para sentar-se em alguma rocha, ler um livro e de vez em quando olhar a grande parede de gelo da cascata e dar graças a Deus por não estar lá. Eventualmente conseguimos reunir energia e começamos a descer. Uma vez esse grande passo foi tomado o desejo de chegar em Pamboche, 1400 metros mais abaixo nos dominou e voamos montanha abaixo sentindo-nos cada vez mais fortes e descansados. Gorak Shep, Lobuche, Dugla, Periche e Samara passaram rapidamente por nós e sete horas depois estávamos nos instalando no Sonam Lodge, um de meus favoritos da trilha toda. Arrumei meu pequeno quarto com carinho de quem vai ficar um longo tempo. Quatro noites pode parecer uma eternidade dependendo do que vem depois. Jantei com apetite redobrado, tomei 3 copos de vinho tinto australiano e assistimos um dvd. As 9 da noite fui deitar e a última coisa que me lembro é de ter sentido o conforto de uma cama plana ao invés das irregularidades das minhas várias barracas das últimas semanas.

27/04/10 – No Campo Base

Decidimos ficar mais um dia no campo base para o Victor fazer a ronda dos outros acampamentos e descobrir se havia mais alguma infomação sobre quando as cordas fixas seriam colocadas até o cume e se havia mais alguma previsão de tempo que confirmasse ou discordasse do que nós tínhamos. Muita coisa está em jogo em nossa decisão em descer ou não para Pamboche e toda a precaução é bem vinda. No ano passado teve um dia de bom tempo no começo de maio, dia 5, e depois disso passaram-se 19 dias sem possibilidade de cume. Não queremos que isso aconteça conosco. Que por causa da descida para recuperação percamos uma chance preciosa e tenhamos que esperar um longo tempo para uma nova chance.

O dia se passou sem grandes novidades e no final decidimos que iríamos mesmo descer.

26/04/10 – O fim do segundo ciclo

Victor queria iniciar o dia as 6 da manhã para evitar o terrível calor na cascata, mas fizemos um motim e decidimos só sair das barracas após o sol tê-las aquecido. Com calma tomamos o café da manhã e as 10 da manhã finalmente estamos prontos para voltar ao relativo conforto do campo base. Como sempre, a caminhada do campo 2 ao campo 1, um suave declive que nos toma apenas 1 hora, é tranquila. Quando o calor iria começar a incomodar o céu ficou encoberto e as cores desapareceram. Entrei na cascata sozinho, estava na frente de todos e nesta hora, já próximo ao meio dia não havia mais ninguém subindo ou descendo. De cima pude ver a paisagem apavorante deixada pelo colapso da torre dias antes e mais uma vez me questionei sobre a loucura que é subir e descer por entre essa roleta russa. Senti-me particularmente exposto, talvez por estar sozinho, talvez pelo céu cinza deixando tudo ainda mais sombrio. Procurei escalar o mais rápido possivel, mas o cansaço dos esforços do dia enterior me impedem seguir na velocidade que quero. Ainda assim, agora com a prática da quarta pasagem, cruzo as escadas com mais confiança e em quatro horas chego ao campo base. Logo após a Andrea chegou ao nosso acampamento e passamos o restante do dia juntos. Finalmente, ainda que por apenas um dia, estavamos no mesmo lugar ao mesmo tempo e podemos matar as saudades, contar um ao outro nossas experiências e passar a noite juntos.

Durante boa parte da tarde nosso grupo debateu o que fazer nos próximos dias. Ao contrário dos anos anteriores, nesta temporada existe a possibilidade de que as cordas fixas estejam instaladas até o cume nos primeiros dias de maio. Se o tempo colaborar poderíamos fazer nossa tentativa de cume nos próximos dias. Por outro lado, há vários anos se constatou que passar alguns dias a uma altitude mais baixa é excelente para a recuperação antes de se tentar o cume. O escalador Anatoly Bukreev do Kasaquistão foi um dos primeiros a recomendar esta tática que é utilizada quase universalmante hoje em dia. O nosso problema então era que para descer até Pamboche a 3900 metros gastamos 7 horas de descida e ao redor de 10 de subida e para valer a pena o esforço teriamos de ficar três dias lá. Hoje é dia 26, amanhã necessitamos um dia aqui para descansar e preparar-nos para a descida e também ver com as outras expedições o que eles tem de previsão de tempo. Com isso só desceríamos dia 28 e estaríamos de volta dia 2 de maio. Teríamos um dia de descanso no campo base (dia 03), subiríamos dia 4 ao campo 2, um dia de descanso lá e dia 6 subiríamos ao campo 3, dia 7 ao campo 4 e dia 8 seria nosso dia de cume. Mas, as previsões de tempo nos dão no máximo 10 dias e mesmo assim só os primeiros 5 ou 6 são confiáveis. Então o debate ficou se valia a pena descer e recuperar-se e com isso eventualmente perder a chance de cume ou se seria melhor ficar no campo base esperando. Neste ano as cordas ao cume serão fixadas pela expedição do neo zelandês Russel Brice, o maior operador de expedições comerciais do Everest e o Victor recebeu a informação de que se o tempo permitir elas estarão prontas dia 4 de maio. Ficar ou não ficar...this is the question...No final da tarde nos conectamos a internet e baixamos nossa previsão do tempo paga (US 100 a previsão) e ela nos disse que do dia 29 ao dia 2 o tempo estará bastante mal com ventos fortes e nevascas. De posse desta informação decidimos que não haveria razão para esperar no campo base. Amanhã desceremos para Pamboche com árvores, boa comida e muito oxigênio!

25/04/10 – Enfrentando a parade do Lhotse

A idéia era sair as 6 da manhã, mas por uma razão ou por outra nunca conseguimos ser pontuais. Eu detesto fazer as coisas com pressa de manhã, mas sou acordado as 5 da manhã, muito mais tarde do que o planejado. Temos o que é considerado o mais difícil dia da expedição pela frente e um início cedo seria prudente. A previsão do tempo dizia que este seria um bom dia com ventos suaves, mas já ao sair da barraca vejo que não será o caso. Está ventando bastante e muito frio. Como sempre, para mim, a parte mais difícil do dia é ir ao banheiro. No acampamento 2 o banheiro é um muro de pedras cobrindo a frente de uma cravasse. Nos poucos minutos que fico lá a temperatura do meu corpo desaba. Entro na barraca refeitório tremendo de frio e apenas após dois copos de bebidas quentes que me recupero um pouco. Equipo-me com botas duplas de 8.000, cadeirinha, mosquetões, jumar e toda a parnafernália que pesa mais de 5 quilos. Na mochila levo um litro de água, um pouco de comida, filtro solar e labial e lanterna. Estou com duas camadas grossas de calças e com meu casaco de penas de menos 40 graus. Locomovo-me com dificuldade pelo terreno acidentado que vai do campo ao glaciar. Em poucos minutos estou ofegante e tenho medo de não dar conta do trabalho que tenho pela frente. O Greg ficou para trás com diarreia. O Victor segue a frente com o Rob e o Marco que neste ano está super forte. Eles começam a distanciar-se. Poir mais que tente não consigo aumentar meu ritmo. Após meia hora chegamos ao glaciar e paramos para colocar os crampons e juntar o grupo. A partir daí, caminhando sobre o gelo, consigo fazer um ritmo mais constante e coordenar minha respiração com minha passada. Um passo uma respirada. Procuro não olhar para frente, para nosso destino. Minha velocidade é muito pequena e o objetivo muito distante. Paciência é talvez a maior virtude do montanhista. Fixar a atenção no presente. Passo a passo. O frio está imenso e o vento fortíssimo. Após duas horas chego a parede do Lhotse, uma imensa rampa de 1200 metros verticais de gelo azul duro como concreto. Já ganhei 500 metros verticais e tenho de escalar outros 600 para chegar ao campo 3. Cruzo uma imensa fenda usando uma escada de alumínio e inicio a escalada. Pelas próximas 4 horas repitirei o mesmo movimento, pé direito contra o gelo, avançar o jumar, pé esquerdo um pouco acima, avançar o jumar mais uns centímetros. A cada avanço de pé três respirações. Pé, respira, respira, respira, jumar, pé, respira, respira, respira. A cada 6 avanços de pés, uma parada de 5 ou 6 respirações. A cada rampa vem outra rampa, interminavelmente. Após duas horas na parede o grupo do Henry Todd desiste. O vento está muito cruel e eles não estão com roupas adequedas. Estamos apenas nós na parede além de alguns sherpas. Muito lentamente seguimos. O vento vem em rajadas de até 50 quilômetros por hora. As mais fortes chegam a nos desequilibrar. Meu corpo está quente, mas as partes expostas, nariz, labios e queixo estão ficando amortecidos. Minhas mãos estão frias, mas prefiro seguir com luvas finas que me dão mais habilidade para lidar com o jumar. Para aquecê-las a cada minuto sacudo os braços e mexo os dedos dentro das luvas. Olho para o chão e vejo uma fina camada de neve passar rapidamente entre meus pés como se fosse areia em uma duna com vento. Seria lindo não fosse tão preocupante. Após mais uma parte inclinada vejo duas barracas amarelas no meio da imensidão branca. Campo 3! Estou escalando a não mais do que 100 metros verticais por hora e por mais que me esforce as barracas continuam distantes. O vento as vezes trás finas partículas de neve que de alguma forma encontram uma maneira de entrar em minha roupa. Quando o vento aumenta a visibilidade cai para poucos metros, mas em poucos seguntos o vento abate e volto a ver as barracas. Ainda seguem longe. Agora já não é questão de aclimatar, esses poucos metros de ganho não farão diferença. Mas saimos para chegar ao campo 3 e queremos chegar lá. Após 6 horas de escalada ininterrupta chegamos ao campo e imediatamente iniciamos o regresso. O plano era parar, comer algo, tomar um pouco de água, se deleitar com a vista, mas o frio e o vento faz com que fujamos deste lugar o mais rápido possível.

Normalmente fazemos as descidas segurando apenas as cordas fixas com as duas mãos e com isso temos o atrito suficiente para descer com segurança, mas da forma como a parede está este ano esta técnica é muito arriscada. Temos que rapelar o que significa que a cada lance de corda apenas um escalador por vez pode descer. Isso implica em longas esperas com muito frio e com os tornozelos em posições extremamente desconfortáveis contra o gelo inclinado. E assim mais duas horas frias passam com rapel após rapel para chegar a base da parede. A partir daí sei que a parte difícil foi feita, mais uma hora e estarei no acampamento 2.

Enquanto caminho de volta penso que estou pronto para a tentativa ao cume. A fase de aclimatação está concluida. Não posso acreditar. E só isso? Foi super duro, muito mais duro do que imaginava. Mas, com dois ciclos estamos prontos. E o dia mais difícil da escalada ao Everest está concluido. Na próxima vez que escalar esta parede já estarei mais aclimatado e só terei de subir para dormir lá e dormirei já com oxigênio, não muito, apenas talvez meio litro por minuto, mas mesmo assim será mais fácil.

Chego no campo 2 desidratado, faminto e exausto. Durante todo o dia não paramos um segundo, a nevasca e o frio extremo não permitiram. Vou diretamente para a barraca refeitório e lá fico consumindo copiosos copos de chá, café com leite e chocolate. Logo após o jantar finalmente consigo reunir forças para ir para a barraca, tirar as botas duplas, as meias encharcadas (apesar do frio) e entrar dentro do meu sleeping bag.

24/04/10 – Descanso para enfrentar o dia mais difícil da escalada

Para descansar o máximo possível tomo um benzodiazepínico novo que não deprime a respiração. Acordo após doze horas de sono profundo, mas mesmo assim ao menor esforço fico ofegante. A esta altitude não existe propriamente aclimatação. Estar aqui ajuda a acostumar-se a altitude, mas ao mesmo tempo cada hora acima do campo base debilita. O segredo é saber o ponto em que o ganho em termos de aclimatação é maior que a perda que o organismo sofre. Para nosso grupo decidimos que 4 noites aqui encima é o equilíbrio ideal embora para cada um de nós isso possa ser diferente.

Passamos o dia discutindo a estratégia para os próximos dias. O Victor acha que existe uma boa possibilidade de que as cordas estejam fixas até o cume muito mais cedo neste ano e que com isso passamos ter a chance de cume já na primeira semana de maio. Nos últimos anos a janela de bom tempo tem sido nos últimos 10 dias de maio, mas isso em parte pode ter ocorrido porque as cordas não estavam prontas mais cedo. Varía muito de ano para ano, mas podem existir mais de uma janela durante o mês de maio. Para que se tente o cume tem de haver três condições: as cordas tem que estar fixas até o cume, o tempo tem de estar bom e os escaladores tem de ter pelo menos tocado o campo 3. Existe um grande debate sobre a validade de dormir no campo 3. Tradicionalmente esta era a tática usada sempre e só apenas depois de dormir a 7200 metros se considerava que o escalador estava pronto para tentar o cume. Nos últimos anos no entanto mais e mais expedições tem tocado o campo 3 apenas. A discussão é sempre a mesma. Será que o que se ganha em termos de aclimatação compensa o enorme desgaste que passar uma noite a esta altitude? É muito difícil saber-se com exatidão a resposta desta questão e no final provavelmente varia de pessoa a pessoa. Victor acha que tocar já é o suficiente e é isto que faremos.

Passamos a tarde jogando cartas e logo após o jantar fui dormir. Queria estar bem descansado para o dia seguinte.

23/04/10 – Estudando de perto o que terei pela frente

Surpreendentemente dormi super bem sem dores de cabeça e sem despertar inúmeras vezes que é o meu padrão a cada vez que durmo pela primeira vez a uma nova altitude. É tão inusual para mim passar bem na primeira noite que uma onda de otimismo me invade. Esta montanha é tão mais dificil do que o Cho Oyu ou qualquer coisa que já tenha feito que sentir um pouco de otimismo é algo muito bem vindo. Cada vez que olho o que tenho pela frente, cada vez que admiro o tamanho da Lhotse Face, que tento ter uma idéia do que é estar a 8.000 metros no campo 4 e ainda ter pela frente 850 metros do dia de cume me encho de dúvidas sobre minha capacidade de conseguir estar lá em cima em um futuro não muito distante. A cada momento tenho que me dizer que pensar nisso agora é prejudicial. Tenho que me concentrar no trabalho de cada dia, de cada hora, de cada objetivo. Quando estiver no campo 4 partindo para o cume daí então pensarei nisso. Mas, isto é tão dificil...estou caminhando e a cada momento é só levantar a cabeça e ver a imensa crista sudeste do Everest.

Tomamos o café da manhã junto com os outros 9 escaladores do grupo do Henry Todd com o qual estaremos dividindo o campo 2. Este campo também é chamado de ABC, ou Advanced Base Camp (Campo Base Avançado), pois aqui temos uma barraca cozinha, um cozinheiro e uma barraca refeitório ao contrário do campo 1 e dos campos 3 e 4 onde apenas teremos barracas duplas e cozinharemos na própria barraca. Este campo funciona também como local de abastecimento para os campos superiores e ao lado da barraca refeitório estão empilhadas mais de 40 garrafas de oxigênio prontas para serem levadas ao campo 3 e 4. Eu preferiria muito mais ter um campo só nosso e não ter de dividir com outra expedição, mas este é um dos meios de não ter um preço proibitivo como nas expedições comerciais tradicionais onde uma escalada ao Everest pode custar até US 70.000.

Nosso plano inicial era ter hoje como dia de descanso, mas o Victor tem muita dificuldade em ter um dia inteiro sem fazer nada então resolvemos inverter a ordem e seguir hoje até a parede do Lhotse e ter o descanso amanhã. Resolvemos sair do campo por uma rota difente e pouco tempo depois percebemos que apesar de ser mais fácil caminhar diretamente do campo pelo glaciar isto não é feito pelo perigo de cravasses cobertas por neve. A rota tradicional segue pelo acampamento 2 que é bastante extenso. Nesta parte do glaciar onde estamos não há cordas fixas e resolvemos que é mais seguro nos encordarmos. Uma queda em uma das inúmeras profundas cravasses sem a segurança de cordas fixas ou de estarmos encordados um ao outro seria seguramente fatal. A paisagem é lindíssima e finalmente após por tantos anos ler sobre esta parte da escalada finalmente eu estou vivendo o que apenas minha imaginação sonhava. Nomes como Yellow Band, Geneva Spur, Lhotse Face finalmente são realidade frente aos meus olhos. A poucas centenas de metros a minha frente vejo a rota tão desejada. Vejo o West Cwn (Vale do Silêncio) terminando em um cul de sac com as paredes altíssimas do Lhotse, Nuptse e Everest fechando o vale. A parede do Lhotse é assutadora em sua inclinação. É quase impossível imaginar o campo 3 em algum lugar da parede com pequenas plataformas cavadas no gelo. Mais acima meio vejo meio imagino a travessia da parte superior da Geneva Spur, um mixto de gelo e rocha bastante perigoso. E ainda mais acima, mais de um quilômetro de onde estou o colo entre o Lhotse e o Everest onde estará daqui a alguns dias montado o campo 4.

Após duas horas e meia de caminhada com um ganho de 500 metros chegamos ao início da parede do Lhotse. O que vemos nos assusta e preocupa. A face é gelo puro, não há nada de neve. E neste gelo não vemos marcas da passagem dos sherpas que já escalaram a parede preparando o campo 3. O gelo é tão duro que mesmo a passagem de vários crampons não deixou marcas. As cordas fixas estão lá, mas o gelo está como que intocado. Preocupados damos a volta e regressamos ao campo. O objetivo do dia era continuar nosso processo de aclimatação chegando quase a 7.000 metros e também fazer um reconhecimento da rota. Victor que já esteve quatro vezes no cume do Everest diz que nunca viu a face tão difícil.

22/04/10 – Mais uma vez na cascata rumo ao campo 2

Ao pisar na neve congelada do lado de fora da barraca as 4 da manhã o ar frio atingiu meu rosto como um tapa. Esta sempre é a parte mais dura do dia, sair do conforto da barraca e dar os primeiros passos. O coração e os pulmões ainda não estão em coordenação com as necessidades de caminhar nesta altitude. O peso da mochila, quinze quilos, também se faz sentir nesta altitude. Normalmente carrego trinta quilos sem problemas, mas acima de 5.000 metros tudo muda. Caminho ofegante sob um céu lindíssimo salpicados de estrelas. Ao fundo a massa informe de blocos de gelo da cascata. Sigo em silêncio pensando nos dias que tenho pela frente. Vamos ficar pelo menos quatro noites no campo 2 e se tudo der certo vamos pelo menos tocar o campo 3. Serão dias duros por causa da diferença de altitude e pelas condições da montanha. Este inverno foi um dos mais secos dos últimos anos e a montanha está com muito pouca neve e isto deixa tudo mais difícil.

Aos poucos vou ganhando altitude e superando os obstáculos da cascata. Desta vez já não ajudamos um ao outro a cruzar as escadas, isto dá mais segurança, mas ao mesmo tempo torna todo o processo mais demorado e com isto ficamos mais tempo expostos ao perigo potencial da cascata. Passamos pela cascata há poucos dias e no entanto a rota de escalada já não é a mesma. A enorme torre de gelo de várias toneladas desabou dois dias atrás, felizmente sem ferir ninguém, e agora esta parte me dá ainda mais medo, pois posso ver o resultado de um desabamento destes. Por todos os lados uma enorme confusão de blocos de gelo cobre o que dias atrás percorri. Uma nova rota foi desenhada por entre o caos e escalo por novos blocos de gelo. Paramos no campo 1 para rehidratar e comer alguma coisa e após meia hora seguimos rumo ao campo 2. Chegamos ao campo 2 a 6350 metros as duas da tarde após um dia muito duro. Mas, estou me sentindo feliz com o que atingi. Mais uma vez cruzei a cascata sem acidentes e apesar de cansado estou sentindo-me bem após ter comido e tomado vários copos de café com leite. Minha saturação está 82 e a frequência cardíaca 60 o que para esta altitude são resultados excelentes!

19/04/10 – De volta ao Active Rest

Durmo por mais de 12 horas e acordo com um estrondo imenso e imediatamente meu coração dispara loucamente. Desorientado dentro da barraca acho que a avalanche vem da cascata. Olho no relógio e calculo que a Andrea deve estar no meio da subida ao campo 1. Abro afobadamente o ziper da barraca e com imenso alívio vejo que a maior avalanche da minha vida está descendo a encosta oeste do Nuptse, próximo da cascata, mas fora da rota de escalada. Hipnotizado, vejo milhares de toneladas de gelo pulverizado descer em direção ao campo base. Com esforço decido fechar a barraca e poucos segundos depois uma fina nuvem de neve e uma brisa sacodem as paredes de minha barraca. Volto a deitar para me acalmar. Ah, como essa expedição será muito mais dura com eu e a Andrea em lugares diferentes na montanha!

Após o café da manhã iniciamos o que já sei muito bem do Cho Oyu, o conceito de Active Rest, ou seja, dias de recuperação no campo base após termos subido aos campos de altitude, mas com atividade física para que fiquemos ainda mais fortes. Esse plano funcionou maravilhosamente bem no Cho Oyu e vamos aplicá-lo aqui também. Embora tendo um pouco de inveja de outros times que tem dias de verdadeiro descanso sei que esta forma é a melhor e que o esforço desses dias dará frutos mais adiante. Seguimos para o glaciar e buscamos uma parede de gelo quase vertical para treinar nossas habilidades em escalada em gelo. Colocamos os crampons, fixamos uma corda no topo de um penitente e subimos a encosta com o auxílio de dois piolets técnicos e depois descemos rapelando. Fazemos isso repetidamente até que nos damos por felizes e voltamos para o acampamento para um almoço tardio. Enquanto estou comendo Kenton, o guia da expedição ao lado da nossa vem trazer um cartão que o Jota, um dos donos da Venturas e Aventuras, tinha deixado com ele no dia anterior quando eu estava montanha acima. Ele está guiando um grupo de clientes de sua agência e tinha ficado de me visitar. Infelizmente eu não estava então deixou um cartão com palavras tocantes e um amuleto para me dar sorte. Mais uma vez me sinto previlegiado em saber que estou longe de estar sozinho nesta empreitada, que muitos amigos estão acompanhando e me enviam do bons fluidos onde quer que estejam.

No final da tarde fui para o acampamento do Angelo, um português que tinha conhecido no Cho Oyu. Ele é piloto da TAP e frequentemente voa para o Brasil e tem muitos amigos brasileiros. Quando cheguei lá vi que ele também tinha convidado a Karina, uma médica brasileira especializada em wilderness medicine e também apresentadora de um programa de telivisão no Brasil. Como menu tivemos presunto espanhol, bacalhoada, mexirica de sobremesa e, é claro, vinho do porto. Saí de lá com o coração e a barriga felizes.

18/04/10 – De volta ao campo base após visitar o campo 2

Por toda a noite me torturei com a possibilidade de não conseguir acompanhar o grupo ao campo 2. Sei muito bem o quanto essa subida ao campo 2 é importante e que se não for hoje até lá terei de alguma forma compensar para estar nas mesmas condições do grupo. Mas, quando o despertador toca, vejo que a dor de cabeça passou e que apesar de não ter dormido quase nada e não ter jantado posso pelo menos tentar subir. Tomo apenas um copo de chá, nada mais desce e começo a me preparar para sair. A temperatura está ao redor de 18 graus negativos e um vento sopra do Lhotse em nosso rosto. Estou no Vale do Silêncio e na minha frente está o meu objetivo. Enquanto caminho vou estudando a rota que percorrerei nas próximas semanas. O Vale do Silêncio é uma enorme bacia cercada de paredes de gelo altíssimas. Ao sul, a parede do Nuptse lindíssima toda de gelo vitrificado. A frente a imponente e muito íngrime parede do Lhotse que liga o campo 2 ao campo 4 no South Col, ou Colo Sul. E ao norte a parede do Everest e visível claramente de onde estou a rota do dia do cume. Estou todo coberto e mesmo assim minhas mãos e pés estão gelados. Penso em quanto a Andrea vai sofrer neste dia. O sol já iluminou todo o vale, mas seus raios ainda não chegaram até onde estou caminhando. Coloco o buff sobre o meu rosto, mas o ar que já é rarefeito fica ainda mais escaço e prefiro sofrer com o frio do que com a falta de ar. A subida é longa, mas gradual e consigo manter um ritmo enquanto minha mente vaguea e analiza tudo o que vi e senti nas últimas 24 horas. Preparo-me para cruzar mais uma ponte e como já cruzei mais de 30 desde ontem acho que está sera rotina, mas por alguma razão sinto que esta é diferente e tenho medo. Claro que isso faz com que começe a cruzá-la com inseguridade e no meio dela me desequilibro e pela primeira vez acho que vou cair. Travo no meio dela e tento me acalmar, respiro fundo duas vezes e passinho a passinho vou chegando no outro lado. Aliviado sigo em frente já temendo ter de cruzá-la outra vez dentro de poucas horas quando voltar ao campo 1. Dalí para frente não tem mais escadas, mas por outro lado tenho que saltar várias cravasses menores e por serem menores não tem corda fixa para dar segurança. A cada uma que salto tenho uma breve visão de suas profundezas e sinto que desde que começamos ontem por poucos momentos pude realmente relaxar.

Chegamos ao campo 2 após duas horas de escalada e estou exausto. A parte final já não é em gelo e sim em morena, uma coleção de rochas congeladas deixando o terreno extremamente irregular subindo e descendo e a cada 5 minuto sou obrigado a parar para recuperar meu fôlego. A falta de sono e principalmente de comida se faz sentir e fico super feliz quando o Victor decide que já subimos o suficiente e é hora de descer. Se até agora o frio castigou muito, agora com os raios de sol chegando até onde estamos vamos sofrer com o calor. O Vale do Silêncio é famoso por ter uma absurda variação de temperatura. Antes do sol nascer a temperatura pode ser de até 20 graus negativos subindo rapidamente a 30 positivos em questão de minutos. Tiro minha sobre calça, minhas 3 camadas da parte superior e fico só de camiseta e calça de trekking, mas mesmo assim sinto toda minha energia se esvair. Estou descendo e parece que estou subindo. As 10 da manhã chegamos de volta ao campo 1 onde paramos por uma hora para rehidratar e comer um pouco. Já me sinto melhor e consigo comer e com isso me sentir mais forte, mas tudo o que desejo é poder dormir por algumas horas. No entanto este não é o plano e as 11 da manhã iniciamos a longa descida cheia de subidas rumo ao campo base. Mais tensão, mais ao redor de 30 escadas e finalmente as 3 da tarde estou chegando ao campo base. Antes de ir para o meu acampamento resolvi passar no da Andrea para avisá-la que já estou de volta. Ela diz que em breve vai fazer-me uma visita e volto ao acampamento. Estou tão exausto que me perco no caminho e acabo demorando o dobro para chegar. Só quando estou sentado na barraca refeitório tomando um copo de café com leite, já sem as horriveis botas duplas que sinto que posso relaxar. Em breve a Andrea chega e lhe conto das minhas aventuras e ela me conta que no dia seguinte subirá ao campo 1 e de lá ao 2 e só voltará a descer depois de 4 noites lá em cima. Como nosso plano é descansar 3 dias e voltar a subir percebemos que vamos nos ver muito pouco nessas proximas 2 semanas... Logo após o jantar vou para minha barraca e exausto adormeço.

17/04/10 – Beleza e perigo

Acordo as 3 da manhã e tenho que buscar toda a força de vontade dentro de mim para comecar a me preparar para o grande dia. Está doze graus negativos fora da barraca e tenho apenas o rosto do lado de fora do meu sleeping bag. Chamo a todos, mas sinto que eles também se sentem da mesma forma que eu. Estranho, eu sempre pensei que nesta hora estaria morrendo de medo de enfrentar a cascata. Em muitos relatos que li as noites antes de subir a cascata sempre inspiravam um grande receio. Meu amigo Carlos Escobar que guiou no Everest 4 anos atrás, me contou que nem conseguia dormir a cada vez que tinha que cruzá-la. Do meu lado, só sinto preguiça de sair no frio. Levo uma hora para me vestir com 4 camadas no tronco, duas nas pernas e um gorro grosso. Tento comer bastante no café da manhã, mas só consigo comer duas torradas e um ovo frito, mas tomo um litro de clight quente.

Caminhando como um robô com minhas desajeitadas botas duplas entre as pedras do acampamento me deslumbro com a linda noite estrelada sem lua e sem vento. Antes de seguir rumo a cascata paramos frente ao altar e acendemos junípero e junto com o Padawa faço uma pequena preçe para que Chomolongma nos receba. Atiramos grãos de arroz aos deuses e seguimos nosso caminho. Na direção da cascata vejo um grande fila de pequenos pontos de luz subindo verticalmente rumo ao campo 1. Após meia hora de caminhada chegamos ao início da subida e colocamos nossos crampons. O barulhinho do gelo quebrando sob meus pés sempre é delicioso e tento colocar um ritmo constante para acalmar meu coração que bate loucamente. Aos poucos vou me acalmando e em mais uma hora chegamos a primeira escada que se apoia dos dois lados de uma enorme cravasse com pelo menos 30 metros de profundidade. Me coloco na posição inclinado para frente apoiado nas duas cordas e isso faz com que eu olhe diretamente no enorme abismo de gelo azul por entre meus pés. Nesta altura o sol está quase nascendo e tenho luz suficiente para ver onde estou. O lugar é maravilhoso, o paraiso de um montanhista. Enormes torres de gelo de posições e formas variadas, gigantescas cravasses se abrindo para todos os lados, blocos de gelo caidos a esmo mostrando claramente o quanto esta encosta toda está em constante fluxo. Tento não pensar em como é absurdo estar me expondo desta maneira. Normalmente eu não subiria em uma escada colocada tão precariamente nem para trocar uma lâmpada e no entanto aqui estou eu cruzando uma fenda que não consigo e nem ouso ver onde acaba. Mas, mesmo assim prossigo pelo louco labirinto de gelo subindo, descendo, cruzando mais cravasses, galgando os degraus em encostas que de outra maneira necessitaria de técnicas de escalada em gelo o que nesta altitude seria muito cansativo e tardaria ainda mais aumentando o perigo. A idéia é passar pela cascata da maneira mais segura, mas também mais rápida diminuindo o risco de estar lá quando um desses blocos desabe. As 9 da manhã estou a 5500 metros de altitude e entro no que se chama de "área da pipoca", a mais perigosa parte da escalada. Esses 200 metros verticais realmente dão medo e passamos por ela sem parar um segundo. O nome vem da enorme quantidade de blocos de gelo de ao redor de 1 metro cúbico empilhados uns sobre os outros sem lógica ou razão. Um caos pronto para te engulir. Acima da popcorn está o football field, o campo de futebol, um dia uma região plana, mas que hoje é uma enorme encosta também bastante irregular. Tenho fome e sede, mas parar aqui é loucura. Seguimos mais uma hora e finalmente chegamos em uma região segura para reunir o grupo e descansar um pouco. O perigo ficou para trás e posso relaxar um pouco. Acabo de cruzar pela primeira vez a cascata de gelo do Khumbu! Enquanto comemos um pouco escutamos o enorme barulho de um bloco de gelo se quebrando, algo como um grande trovão. O Victor corre para a borda da cascata, mas não ve nada e concluimos que nada de sério aconteceu. Tudo é tão fortuito...

Chegamos ao acampamento 1 após duras, duríssimas seis horas e meia de escalada, mas a visão das barracas é um pequeno conforto. O sol está escaldante e deixa o interior das barracas inabitável. Colocamos os colchonetes do lado de fora e fazemos um picnic. Estou me sentindo super bem e ao checar minha oximetria vejo que estou com 90% de saturação (resultado excelente) e 55 de frequência cardíaca. No entanto, conforme as horas passam começo a sentir minha tão conhecida dor de cabeca pulsátil atrás do olho direito. Infelizmente sei muito bem como será a sequência nas horas que se seguirão. A dor vai piorar, virá a nausea, vomitarei e terei uma noite infernal. Tal qual um bem conhecido script, vou seguindo os passos. Não consigo comer mais nada e o que comi volta as 8 da noite. Tomo analgésicos, mas de nada valém. Finalmente as 2 da manhã consigo dormir, mas as 4 já estamos nos preparando para seguir para o campo 2, quatrocentos metros acima.

16/04/10 – Treinando para enfrentar a casacata de gelo do Khumbu

Como amanhã será um dia longo resolvemos ter um dia bem leve. Com isso, ao invéz de fazer o treinamento de cruzar as escadas da cascata na própria cascata o que significaria uma caminhada de pelo menos 2 horas, fomos perto do acampamento e colocamos uma escada entre duas cristas de gelo e fixamos duas cordas simulando a situação real. O problema é que cruzar uma escada tendo abaixo um metro é muito diferente do que tendo 40 metros de vazio abaixo dos teus pés. Mesmo assim fizemos várias travessias até nos sentirmos confortáveis com a técnica que consiste em debruçar-se para frente apoiando-se ans cordas e colocar os crampons de modo que o degrau fique entre dois pares de dentes. Para aumentar um pouco a estabilidade abrimos um pouco os braços e com isso pude sentir um pouco menos desconforto, mas mesmo assim não pude deixar de pensar mais uma vez que grande loucura tudo isso é.

O restante do dia passei na barraca refeitório conversando e hidratando. Também estou tentando comer muito mais do que o meu organismo pede, pois sei que daqui para frente nos campos de altitude vou perder rapidamente peso e não tenho muita reserva. No final da tarde a Andrea veio me visitar e me contou de sua experiência cruzando a cascata. Disse da beleza e dos perigos, das áreas mais instáveis e do enorme esforço que é chegar no campo 1. Nos despedimos com tristeza e fui para minha barraca solitária preparar o material para o dia seguinte. Na minha mochila estão roupa extra, comida para um dia e meio e meu colchonete inflável. A idéia é ter pouco peso, pois como é nossa primeira subida na cascata queremos ter o menor esforço possível.

16/04/10 – O treinamento

Novamente dormi a noite toda e pela manhã acordei já com o sol aquecendo a barraca, sinal de que minha aclimatação para esta altitude esta melhorando. Nos despedimos do grupo de malteses e finalmente ficamos só nós cinco e com isso agora realmente podemos concentrar nossa energia na escalada. Ao ver o grupo partir Greg disse – "Lets go guys, we have a mountain to climb" (vamos amigos, temos uma montanha para escalar) – Acho que essa é mesmo a sensação, agora tudo realmente começa. Se a escalada do Everest pode ser dividida em três etapas – aproximação, aclimatação e cume, cada uma delas com aproximadamente 20 dias, acabamos de completar a primeira etapa. Agora temos que montar os campos de altitude, subir progressivamente até eles e aclimatar-nos. Depois disso, se estivermos saudáveis, fortes e o tempo colaborar vem o ciclo do cume.

Aproveitamos a manhã para fazer um pequeno treino de como cruzar as escadas horizontais sobre as cravasses ou as verticais para ganhar as paredes de gelo. Ao lado da escada colocamos duas cordas que servem de corrimão, mas essas cordas não estão tensas então o truque é inclinar o corpo para frente tensionando as cordas por trás e com isso ter mais estabilidade. O que dificulta é que os crampons tem 10 dentes e você tem que achar o intervelo correto entre dois dentes para apoiar no degrau da escada. Não demorou muito para sentir-nos confortáveis, mas aqui a situação é ideal. As escadas estão sólidas, estamos descansados e colocamos a escada apoiada sobre duas pequenas cristas de gelo de maneira que a escada estava a apenas um metro do chão. Amanhã, quando enfrentarmos as verdadeiras, sob nossos pes estarão abismos de mais de 50 metros de profundidade.

A tarde foi gasta arrumando as barracas e preprando a mochila para nossa primeira noite fora. O plano, mas nas montanhas os planos dependem de muita coisa fora de nosso controle, é amanhã cedo subir ao campo 1, passar o restante do dia lá e no dia seguinte tocar o campo 2 e descer diretamente ao campo base, um plano ambicioso já que estamos a 5.300, o campo 1 a 6.000 metros e o campo 2 a 6.600 metros.

15/04/10 – Após pedir permissão aos deuses, estou pronto para subir

Pela primeira vez desde que estou acima dos 5.000 metros durmo a noite inteira sem acordar, sinal que finalmente estou ficando aclimatado a esta altitude. Mesmo assim, para ir de minha barraca a barraca refeitório, meros 10 metros, fico um pouco ofegante. Mas, pelo menos, a lassidão que sentia dois dias atrás desapareceu. De todos os sintomas de altitude este é o que mais me incomoda. É muito desagradável sentir uma profunda preguiça para fazer qualquer coisa. Penso em colocar um casaco e entre sentir que preciso e tomar a decisão de buscar na bagunça da minha barraca, vários minutos passam.

Assim que acordo percebo que não nevou muito esta noite, ao contrário das últimas dias. Com isso sei que a Andrea deve ter saido as 3 da manhã para "tocar" o campo 1. Então, enquanto me espreguiço no conforto do meu sleeping bag sei que ela está a caminho do fim da cascata e sinto medo. Este trajeto é muito perigoso e ao mesmo tempo impossível de evitar os perigos, uma espécie de roleta russa. De todos os lados negativos de estarmos escalando separados este é o pior. A cada dia estaremos fazendo coisas perigosas e separados, um sem saber do outro até que o dia termine. Mentalmente desejo a ela boa sorte, pois nesta parte da montanha técnica, experiência e dextreza pouco valem. É tudo uma questão de sorte..

Hoje é o grande dia, o dia em que realmente a expedição começa, o dia do puja, da cerimônia onde pedimos aos deuses que habitam o Chomolongma que nos deem passagem segura por sua casa. Para muitos que aqui estão esta cerimônia não passa de um curiosidade para contar em casa na volta. Para mim é muito mais do que isso. É o momento de me concentrar e realmente criar a energia positiva que me ajudará e a todos mais para que possamos superar os obstáculos que nos esperam, com saúde, segurança e respeito. Enquanto o lama idoso que veio especialmente de Pamboche, dois dias de caminahda daqui, entoa os mantras, fecho os olhos e mentalmente desejo uma escalada segura e alegre a todos os que conheço aqui na montanha. Penso primeiro nos que me são mais próximos, na Andrea, Victor, Greg, Marco, Rob, e aos poucos vou incluindo mais e mais gente, sempre procurando ver os seus rostos enquanto lhes desejo o melhor nestes dias que virão. Todos os nossos amigos sherpas, os outros escaladores que estão na nossa expedição, os outros de outras expedições e até os irmão argentinos que tanta dor nos causaram.

A cerimônia termina com todos atirando aos céus grãos de arroz e depois tsampa, cevada torrada e moida que é o alimento básico dos sherpas. Em seguida, com muita brincadeira passamos tsampa no rosto um dos outros com o significado de que possamos viver até que nossos cabelos sejam da cor da tsampa, cinza claro. Enquanto passo tsampa no rosto de meus amigos lhes desejo vida longa. Pintados como índios para guerra abrimos latas de cervaja San Miguel e brindamos a saúde de todos.

Ao voltar para a barraca estudo a cascata de gelo com binóculos e vejo infinitamente pequenos pontos movendo-se entre blocos de gelo gigantescos. Neste ponto, grande parte das expedições já fez seus pujas e se dirigem ao campo 1, ainda não para dormir lá, apenas para "tocar", ou seja, chegar até ele e daí descer. Como fizemos o Island Peak vamos saltar esta etapa.

A tarde, com todo o grupo de trekkkers de Malta, subimos 200 metros na cascata para que eles tenham uma pequena experiência do que é estar na montanha. Claro que, com eles demoramos muitíssimo e não conseguimos chegar nas escadas para praticarmos, mas mesmo assim foi uma caminhada agradável com formações lindíssimas de gelo azul contra as paredes do ombro oeste do Everest e a parede norte do Nuptse. Como sempre será por aqui, não existe zona de conforto térmico. A variação é tão grande e tão brusca que você sempre está ou com calor ou com frio. Basta entrar uma nuvem para que a temperatura caia mais de 10 graus!

Enquanto subia encontrei a Andrea que vinha do campo 1, cansada mas feliz. Disse que a rota mais acima é bem dura com pedaços bem expostos e uma parede vertical com 3 escadas uma atada a outra de maneira que ao subir ela balança loucamente dando a impressão de que você vai cair a cada instante. Uma grande prova de que a cascata é tão instável é que para descer tiveram que usar uma rota completamente diferente em um trecho, já que uma grande seção tinha desabado. Nos despedimos combinando de ela vir passar a noite comigo no dia seguinte que será seu dia de descanso.

Voltamos para o campo e passamos o restante da tarde conversando com o grupo.

Finalmente a escalada está comecando...

14/04/10 – Reunindo-me com meu grupo

Tínhamos colocado o despertador para as 3 da manhã para a Andrea comunicar-se com o time dela para ver se iriam fazer a primeira viagem até o campo 1 a 6000 metros, mas como ventasse bastante e tivesse caído uma grande quantidade de neve, a saída foi abortada. Voltamos a dormir e só acordamos as 8 da manhã já com o sol aquecendo a barraca. A Andrea voltou para o campo dela e eu fui tomar um preguiçoso café da manhã que quase se uniu com o almoço. Aproveitei o calor da manhã para tomar um banho e escrever.

As 13 horas o grupo dos malteses chegou com cara de muito cansaço. Tinham saído de Lobuche de madrugada para ver o nascer do sol no Kala Patar, um lindo espetáculo, mas o cansaço dos dias anteriores, da escalada ao Island Peak, fez com que muitos desistissem antes do cume. Fiquei muito feliz ao revê-los, mas sinto que só realmente nos tornaremos o time que tínhamos no Cho Oyu quando os trekkers de seu grupo se forem, depois de amanhã, e voltarmos a sermos apenas nós cinco. Victor, como sempre, está com uma grande disposição, mas sinto que Greg, Marco e Rob estão bem cansados. Ainda não sei qual será a programação dos próximos dias, mas sinto que eles precisam de pelo menos um dia de repouso antes de podermos com confiança subir ao campo 1.

Não vejo a hora de realmente começar a escalada. Esses vinte dias desde que sai de Katmandu foram extremamente importantes para dar o último toque em minha forma fisica que está excelente e para ajudar na minha aclimatação, mas sinto que quero finalmente colocar os pés na montanha e começar a subir.

13/04/10 – Organizando-me física e mentalmente

Que delícia depois de tantos dias sem parar, sem ter espaço mental para descansar, ter dois dias de ócio completo! Acordei na hora que o sono acabou e só sai para tomar café da manhã após o sol ter aquecido confortavelmente a barraca. Durante a noite, nevou ao redor de 5 centímetros e pela manhã o céu estava completamente azul, com esta tonalidade de azul escuro que só existe acima dos 5.000 metros. Todo o chão estava coberto por uma grossa camada de neve, as montanhas estavam imaculadas e o mundo parecia ter sido criado naquele momento.

Como única tarefa do dia, com muita calma, organizei a barraca e os barris que tinham vindo de Katmandu nas costas dos gentis yaks com meu equipamento de escalada. De resto, passei a tarde lendo, dormitando e conversando com o grupo de escaladores que dividi a mesma área que nós.

Na hora doi jantar, o tempo fechou bruscamente e inúmeros raios começaram a cortar o céu com trovões assustadores. Pouquíssimas vezes assisti a uma tempestade elétrica tão intensa aqui no Khumbu. Logo depois começou a nevar pesadamente e corri para o conforto de minha barraca. Tentei ler um pouco, mas o cansaço das últimas semanas foi mais forte e adormeci. Tínhamos combinado da Andrea vir dormir comigo, mas com esta mudança de tempo achei que ela tinha mudado de idéia. Ela ainda está com uma tosse bem feia e achei que ela tinha decidido ficar no seu acampamento. Mas, as 9 da noite ouvi sua voz me chamando e quando abri a porta da barraca a encontrei toda coberta de neve. Desta vez foi ela que se aventurou para me encontrar. Ficamos dentro de nossos quentinhos sleeping bags contando um para o outro de nossos dias. Imagino que casais normais são assim, no final do dia encontram-se e contam um para o outro o que aconteceu. Para nós que passamos os dias juntos, sempre, isso é um pouco de novidade e não sem o seu encanto. Ela fez seu treino de atravessar e subir escadas da cascata e se saiu super bem, mas está um pouco preocupada com seu compamnheiro de escalada, o canadense, que aparentemente é bem inexperiente. Com a multiplicação de expedições comerciais cada vez mais o Everest atrai pessoas que não estão habilitadas para enfrentar um 8.000. Se tudo vai bem, acho que qualquer pessoa com ótima forma física tem boas chances, mas se as coisas dão erradas, como com muita frequência dão, aí as coisas podem se complicar. Nem todos fazem um treinamento progressivo como nós fizemos ou tem os anos de experiência que temos nas montanhas conhecendo nossos corpos e como eles reagem a altitude.

Adormecemos com o agradável ruido da neve cobrindo gradualmente nossa barraca.

12/04/10 – Chegando em casa

Após o café da manhã reforçado, peguei as coisas que tinha deixado na subida e mais uma vez minha mochila voltou ao seu peso habitual, trinta quilos. Tinha pela frente ao redor de duras 8 horas de caminhada com um ganho de mais de 1000 metros e de volta ao mundo acima de 5.000 metros que será minha casa pelos próximos 40 a 50 dias. No caminho fui reencontrando algumas pessoas que tinha conhecido na subida e todos me desejavam feliz escalada. Mesmo alguns sherpas vendo o tamanho de minha mochila me perguntavam se eu ia escalar o Everest e ao responder que sim podia ver em seus rostos admiração e respeito. Sei que minha motivação para subir o Everest não é massagear meu ego, mas seria mentira dizer que o ego não fica mexido neste processo. Pessoas querendo tirar fotos comigo, e-mails elogiando minha determinação, o olhar de admiração no rosto de todos, alguns dizendo que sou um heroi, tudo isso, querendo ou não acaba brincando com minha vaidade. E, creio, isso passa com todos os escaladores. Lembro-me de como olhava para aqueles que me contavam que haviam escalado uma montanha de 8.000 metros. Crei que o importante é o que fazer com esses sentimentos. Se isso for a motivação principal da escalada inevitavelmente vai levar a sofrimento pois o ego é insaciável. Ele sempre quer mais. E então vem a frustração. Como antidoto uso uma simples tática. É só olhar para os sherpas e ver o que fazem. Padawa, o sherpa principal de minha expedição já esteve no cume do Everest 13 vezes e sempre ajudando a escaladores estrangeiros a chegar lá. E ele e um entre os muitos desta região. Uma família com 6 irmãos tem entre eles 40 cumes! Então como posso me sentir vaidoso frente a pessoas como eles? Mas, de qualquer forma, é preciso ficar de guarda, pois o ego é extremamente ardiloso.

Enquanto me aproximava do campo base já vendo a multidão de barracas multicoloridas se espalhando por uma grande área de rochas e gelo olhava para a magnífica e assustadora cascata de gelo, um rio de 600 metros de altura formado por uma confusão de enormes blocos de gelo completamente instáveis pedindo para desabar. Se não soubesse que essa era a rota que percorrerei muitas vezes nas próximas semanas juraria que passar por este formidável obstáculo era completamente impossível.

Fui diretamente ao acampamento da Andrea que fica ao redor de 20 minutos adiante do meu, muito mais próximo da cascata. Ao abracá-la senti que estava um pouco triste e ela me contou que não tinha muito em comum com seus companheiros de escalada. Em seu acampamento estão 3 grupos difrentes, uma expedição de cinco guias de montanha argentinos, Willie Benegas, um conhecido guia argentino com 9 cumes de Everest guiando o presidente da ESPN da América Latina e o grupo dela com um canadense super rico e o guia Damian Benegas. Mais uma vez, como tenho certeza passará tantas vezes nestes próximos dois meses, nos arrependimos da decisão de estar em expedições diferentes. Mas, quando tomamos esta decisão, não tínhamos muita escolha. Para ela, ter o patrocínio era muito importante e para mim estar em uma expedição liderada por pessoas que não respeitava estava fora de questão.

Entrei na barraca refeitório super organizada e conheci os argentinos. Um deles me contou que tinha acabado de ir urinar atrás de uma rocha não muito distante de seu campo e que lá, entre as pedras, encontrou uma mão mumificada sem as pontas dos dedos e com partes de osso aparecendo... Bem vindo ao Everest! Nesta montanha já morreram 215 pessoas e muitos dos corpos ainda estão na montanha. Com o passar dos anos os corpos congelados podem quebrar e com o inexorável movimento do gelo encosta abaixo partes podem resurgir na superfície. Atualmente a taxa de mortalidade medida dividindo-se os que chegaram ao cume versus os que morreram é de 4,5%, ou seja, para cada vinte que chegam ao cume uma pessoa morrará escalando. Penso nas pessoas que conheço aqui na montanha e fico horrorizado com essa estatística. E esse número já foi muito mais alto. Já chegaram ao cume ao redor de 3500 pessoas e 215 morreram! Os sherpas, devido a natureza de seu trabalho subindo e descendo a montanha muito mais vezes que os escaladores estrangeiros, detém uma porcentagem desproporcionalmente alta de mortes. Dos 215 mortos trinta por cento são sherpas!

Apesar de se sentir um pouco deslocada entre seus companheiros de escalada a Andrea não pode deixar de ver os lados positivos de estar em uma expedição vip, bem diferente do que tivemos no Cho Oyu e também do que eu terei na minha. Os irmãos argentinos trouxeram 200 quilos de comidinhas, vinhos e iguarias da Argentina e Estados Unidos e a comida é excelente. Tem um enorme aquecedor na barraca refeitório, um centro de informações metereológicas e uma barraca redonda de teto escurecido para as siestas afinal são argentinos... Como os irmãos são atletas North Face tem barracas novíssimas, seus sherpas estão equipados com roupas North Face de última geração e o acampamento é impecável, desde a barraca cozinha até a barraca banheiro. Para contrabalançar, na minha expedição tenho um guia que nos anos 80 estava entre os cinco melhores do mundo e 4 amigos nos quais sei que posso contar em qualquer situação. Em uma montanha como essa sei que minha sobrevivência pode estar nas mãos de meus companheiros. Não tenho dúvidas sobre minhas prioridades aqui no Everest. Barracas mais velhas, comida mais aborrecida, banheiro incômodo, sem problemas...Mas, gostaria que a Andrea estivesse comigo.

É difícil descrever o que é um acampamento base de uma montanha como o Everest. Para que minha barraca possa estar aonde está, em uma plataforma razoavelmente plana, que exista uma banheiro que nada mais é do que uma pequena barraca retangular sobre duas rochas com um buraco no meio, que duas grandes barracas abriguem a cozinha e o refeitório, foram necessárias semanas de trabalho de nossa dedicada equipe de sherpas. De um ano para o outro todo este trabalho é destruido pelo constante movimento do gelo que está sob nossos pés e ao redor de nós. Para ir de meu acampamento ao do da Andrea sou obrigado a subir em rochas escorregadias cobertas de neve, atravessar um pequeno riacho de gelo derretido e subir e descer colinas de gelo.

Antes de entrar na minha barraca, olho ao redor e vejo um mar de barracas iluminandas e ao fundo a linha nevada de montanhas que separam o Nepal do Tibet. Na escuridão da noite a cascata de gelo deixa de ser amedrontadora e torna-se uma inocente colina branca. Instalo-me dentro de meu sleeping bag -28 graus e adormeço ao som das constantes avalanches que descem das paredes do Khumbutse. Estou onde por anos sonhei estar.

11/04/10 – Escalando o Inja Tse (Island Peak)

Como sempre antes de uma escalada, não consegui dormir muito. A meia noite e meia comecei a preparar meu equipamento e a uma da manhã já estava na barraca refeitório tentando comer algo, pois sabia que o dia seria terrivelmente longo. Estavamos em um grupo de 14 pessoas sendo que 9 completamente inexperientes. Este fato em si não seria problema, já que costumo levar principiantes para esta montanha. Mas, este ano as condições estavam diferentes. Com um inverno muito seco ao invéz da parede ser uma encosta de neve com degraus bem marcados, teríamos uma partede de gelo de 50 graus de inclinação. Como conheço bem a montanha o Victor me pediu para liderar a escalada e sem saber ao poucos fui mais uma vez assumindo meu papel de guia. Saimos as 2 da madrugada com uma noite estrelada e sem vento e iniciei a longa subida de 600 metros até o gelo por entre grandes blocos de rocha. Subia mantendo um ritmo confortável para o grupo ganhando ao redor de 4 metros por minuto, monitorados pelo meu altímetro. Como réplica perfeita da minha última escalada no Island Peak, as 4 da manhã uma linda lua quarto crescente surgiu sobre a crista das montanhas a leste em direção ao Makalu e um pouco mais tarde fomos percebendo o magnífico lugar por onde caminhávamos. Acima, nos rodeando, as cristas de inúmeras montanhas nevadas com seus glaciares despencando em uma massa irregular de assutadores blocos de gelo. Abaixo o vale de onde tínhamos saído com a presença enorme de um lago congelado. Como planejamos, as 6 da manhã com o nascer do sol, chegamos ao gelo e nos paramentamos com botas duplas, polainas, crampons, cadeirinhas e nos encordamos. Por duas horas escalamos por entre lindíssimas formações de gelo azul, paredes com formas bizarras e grandes cravasses. Chegamos então no grande desafio da escalada, a parede de 150 metros que leva a uma crista afilada de 50 metros e de lá a subida final ao cume. Nossos sherpas já tinham ido a frente e fixado as cordas que dariam segurança possibilitando que novatos como este grupo pudessem escalar a montanha com segurança. De cara pude ver que esta não era a mesma montanha que tinha escalado nas outras vezes. Ao invés dos suaves degraus deixados por outros escaladores tínhamos paredes de gelo vertical de até um metro e meio de altura que exigiam técnicas de escalada de front pointing onde se usam os dois dentes da frente dos crampons para cravar na parede e com o auxílio do jumar (ascensor) ganhar preciosos centímetros. Logo percebi que os trekkers necessitariam de muita ajuda caso quizessemos que chegassem ao cume. Dividimos o grupo entre eu, o Victor e meus companheiros de Cho Oyu e aos poucos, com muito incentivo e instrução, fomos conseguindo que um a um chegassem a crista e de lá ao cume. Talvez por que desta vez o Island Peak não fosse um objetivo em si e sim apenas uma etapa de aclimatação para o Everest não me senti particularmente exultante com o cume. Estava feliz, afinal esta pequena montanha está localizada em um lugar espetacular e a vista de seu cume deslumbrante. Mas, o desafio tinha sido muito mais levar essas 9 pessoas que recém havia conhecido do que para mim mesmo. Em nenhum momento senti que havia alguma chance de que eu não conseguisse chegar lá em cima.

Mas, chegar no cume era, como sempre, apenas metade do trabalho e com um grupo grande assim e a montanha do jeito como estava, sabia que descer todos com segurança seria uma tarefa árdua. Finalmente as 15 horas, após 13 horas de escalada, estavam todos felizes, sãos e salvos, de volta ao final do gelo e prontos para descer rumo ao campo base onde passariam a noite. Eu, porém, tinha outros planos. O Victor já não precisava de minha ajuda e decidi ir para o campo base do Everest o mais rapidamente possível. Queria reencontrar a Andrea e ter dois dias de descanso completo antes de enfrentar a temível cascata de gelo. Desci para o campo base voando e segui montanha abaixo para Chokhung e após um copo de chá, ainda mais para baixo para o vilarejo de Dimboche. Cheguei com os últimos raios de sol exausto, mas feliz de estar em um bom lodge, poder tomar um merecido banho quente e jantar uma gostosa sopa e um prato de macarrão.

10/04/10 – Voltando ao papel de guia

De manhã cedo me despedi mais uma vez da Andrea que iria reencontar seu grupo de escalada no campo base do Everest. Mais uma vez ficamos tristes com a séria de ocorrências que culminou em nós escalarmos o Everest em expedições diferentes. A separação que no final seria de apenas 3 dias teve um sabor amargo, pois daqui para frente e pelos próximos 50 dias estaríamos na mesma montanha, mas nos vendo ocasionalmente sem poder dividir todos aqueles momentos que nos últimos 2 anos sonhamos. A primeira travessia em uma das escadas de alumínio sobre as gigantescas cravasses, a chegada ao campo 1 com a vista do campo do silêncio, a noite do cume... Agora essas experiências não mais seriam divididas e sim contadas quando tivessemos a chance.

Fui com o meu novo grupo ajudar a montar um sistema de cordas para que eles treinassem subir com jumar e descer com rapel. O dia estava ventoso e uma grande melancolia me invadiu.

Após o almoço partimos para o campo base a 5100 metros no pé do Island Peak. Jantamos cedo e as 6 da tarde já estavamos nos sleeping bags tentando descansar para o longo dia que teríamos a frente.

09/04/10 – Descanso antes do Island Peak

Como lado bom de minha maratona, além da minha paz de espírito em saber que ela estava melhor, tive o dia seguinte livre e aproveitei para dormir muito. Acho que só então percebi o quanto de energia tinha colocado neste grupo e quão desesperadamente precisava descansar antes de iniciar o Everest. Hoje também reencontramos com meu grupo de escalada do Everest só que além dos 4 eles estavam levando outros 9 trekkers de Malta que os acompanharão até o campo base e que escalariam conosco o Island Peak. O que eu não sabia é que acabaria sendo co guia deles na escalada.

08/04/10 – Por um dia estou só

A despedida do grupo foi muito emocionante. De todos recebi palavras carinhosas e sei que tornarei a ver muitos deles, seja em São Paulo (já estamos combinando um fim de semana em Agulhas Negras em março), seja em uma outra viajem. Eles começaram sua caminhada rumo a Lukla de onde voarão para Katmandu amanhã e eu entrei no lodge para arrumar minhas coisas. Quando voltei a sair do lodge eles não estavam mais lá e senti um pouco de solidão ao iniciar a minha volta ao campo base. Depois de 20 dias rodeado de gente pedindo minha atenção, de repente estava só. Enquanto caminhava pensava que preciso voltar o foco para dentro de mim, preciso prestar atenção a minha saúde, preciso descansar e se possível ganhar um pouco de peso. A escalada do Everest começa dentro de menos de 5 dias e nesses últimos dias não tive um segundo para mim. Agora teria dois dias calmos para caminhar até Chokhung onde encontraria a Andrea, o Guto e a Manuela que foram escalar o Island Peak e um dia depois encontrarei o grupo que irá escalar o Everest comigo, o Victor, o Greg, o Marco e o Rob. As onze da manhã, porém, os meus planos mudaram completamente. Recebi uma ligação do Sunir, meu operador, no meu celular dizendo que o Guto e a Manuela tinham chegado no cume, mas que a Andrea tinha ficado no campo alto, pois tinha adoecido. O Sunir não sabia me dizer se era grave ou o que exatamente ela tinha. Decidi no ato ir até Chokhung neste mesmo dia embora isso significasse uma caminhada de mais de 30 quilômetros e um ganho de altitude de mais de 2000 metros. Cheguei em Chokhung já de noite e encontrei os três comemorando o cume. A Andrea tinha tido febre durante a noite e sua tosse que já vinha a alguns dias tinha piorado e ela sensatamente tinha desistido da escalada. Mas, agora, já mais abaixo e com 24 horas de antibiótico estava melhor para meu grande alívio.

Retomando o foco

Durmo uma noite sem sonhos e acordo no que parece ser apenas alguns segundos após ter adormecido. O oxigênio abundante de 2800 metros faz com que o sono seja extremamente reparador. Olho no relógio e vejo que já são 7 da manhã, uma hora mais tarde do que meu horário normal de despertar. Desço correndo para o refeitório e encontro o grupo já tomando o café da manhã. Pergunto ao Nima se havia me despertado e ele me diz que havia me deixado dormir, pois precisava descansar. Ele tem razão, nos últimos 20 dias não parei um minuto. Cuidar de um grupo de 24 pessoas não foi uma tarefa fácil. Apesar disso me sinto realizado. As condições foram difíceis, muitos se enfermaram, mais do que o normal, mas mesmo assim todos conseguiram realizar seus sonhos e o clima no café da manhã não poderia ser melhor.

Do grupo de desconhecidos que encontrei há apenas 20 dias hoje vejo um grupo de amigos. A despedida foi muito emocionante e o que houvi de todos mais do que compensou toda a energia que coloquei para que eles se sentissem confortáveis e conseguissem chegar ao campo base e ao Kal Patar com um maravilhoso por do sol. Não consigo deixar de chorar, ando muito emotivo com a chegada da grande escalada. Volto para dentro do lodge enquanto eles descem em direção a Lukla acompanhados de nossa equipe. A Andrea esta neste momento chegando ao cume do Island Peak com dois de nossos clientes e eu subirei para encontrá-la em dois dias. Quando saio do lodge e começo a subir rumo a Chokhung me sinto estranho. Não estou mais acostumado ao silência e a solidão. Por 3 semanas estive rodeado por um grande número de pessoas disputando minha atenção. Agora, por dois dias caminharei sozinho. Enquanto volto a trilhar as trilhas tão conhecidas penso que é tempo de voltar meu foco para dentro de mim. Nesses dias todos estive totalmente preocupado com os outros. Agora tenho que dedicar minha energia para o que tenho pela frente.. Percebo que não quase não tomei cuidado comigo.

Meus lábios estão rachados e me sinto cansado fisica e emocionalmente. Isso de longe é a situação ideal. Antes de enfrentar um desafio como escalar o Everest talvez o ideal seria ter feito o que fiz após o Cho Oyu, ficar em um retiro concentrando minhas energias. Meus planos de caminhar devagar e voltar a estar dentro de mim são destruidos com uma ligação do meu operador em Katmandu. Ele me diz que os dois clientes, Guto Ferrarini e Manuela Gonzales chegaram no cume do Island Peak com 6189 metros, mas que a Andrea estava doente e não havia conseguido. Quando pergunto o que ela tinha e qual a severidade ele não sabia me dizer. Mudo rapidamente de planos e decido caminhar até Chokhung naquele mesmo dia, um trajeto de mais de 30 quilômetros e com 2500 metros de subida. Chego em Chokhung as 8 da noite absolutamente exausto e encontro a Andrea e nossos dois clientes comemorando a chegada ao cume. Uma grande onda de alívio me cobre. Ela teve uma tosse muito forte e um pouco de febre e deciciu sabiamente abortar a escalada. Uma infecção pulmonar pode rapidamente levar a um edema pulmonar que acabaria com sua escalada ao Everest. Por meu lado, não poderia ter ficado mais abaixo em outro vilarejo sabendo que a Andrea estava doente e sem saber qual a gravidade. Apesar de exausto estou feliz de ter feito a loucura de ter camionhado 3 dias normais de trekking em 10 horas. Pela manhã reencontramos o Victor, o Greg, o Rob e o Marco, nossos companheiros de escalda do Cho Oyu.

Imediatamente sinto que a dificíl decisão de não escalar o Everest com a Andrea que está na expedição do argentino Willie Benegas e me juntar aos meus amigos do Cho Oyu é completamente correta. Não me dei bem com o Willie e fazer um projeto tão duro como o Everest com pessoas em quem não confio e respeito teria sido um erro monumental. Apesar disso, a cada minuto eu e a Andrea pesnamos na pena que é após dois anos de treino juntos fazer a culminação de nossos sonhos separados. Passo o dia descansando, tirando pequenas sonecas durante o dia, um luxo que não tenho há muito tempo. Aos poucos sinto minha energia voltar e ao final do dia já me sinto novamente pronto para o proximo desafio. Amanhã a Andrea começa sua caminhada ao campo base do Everest e eu vou para o Island Peak com minha expedição. Ontem, quando me despedi de meu grupo e de minha equipe recebi inúmeras katas, encharpes de seda como desejo de que tudo vá bem. Sinto um grande calor no coração ao ver que o que me une a esses nepaleses que trabalham comigo a tantos anos vai muito mais além do que uma relação de trabalho. Existe uma sincera amizade. Ao passar por uma das pontes suspensas deixo as katas amarradas flutuando ao vento e desejo que cada ser possa ter a mesma felicidade que sinto. A cada dia que passa mais e mais sinto que meu lado espiritual se torna mais intenso e esta escalada assume uma dimensão muito maior do que esperava. Estou a caminho..

Após um dia razoavelmente longo, chego ao lodge de Monjo e sou recebido com abraços, um delicioso prato de espinafre refogado e um generoso copo de rakshi de maçã, um destilado local pelo qual eu tenho uma fraqueza particular. Mais uma vez, sinto que aqui, mais do que em qualquer outra parte do planeta, sinto-me em casa, entre amigos, em uma cultura que entendo, gosto e me sinto confortável. Os cuidados, os sorrisos fáceis e sinceros, o calor humano, tudo me dá um calor no peito que é recompensa para qualquer esforço que tenho para que nossos grupos tenham a melhor experiência possível neste maravilhoso país.


Após 15 dias de trekking guiando um grupo de 24 pessoas, uma experiência deliciosa, porém muito cansativa, finalmente estou a caminho do Everest. Há 4 dias estive no campo base pela quadragésima quarta vez mostrando minha "casa" pelos próximos 2 meses para meu grupo e não pude deixar de pensar em quão austero este campo base é. Os escaladores ainda não haviam chegado, mas os sherpas já estavam ocupadíssimos transformando uma superfície irregular de rochas e gelo em algo aceitável para montar as barracas, as cozinhas e as salas refeitórios. Vendo neste estágio de construção é difícil imaginar que este trecho de 500 metros abrigará em poucos dias ao redor de 300 escaladores mais sherpas de apoio, cozinheiros e auxiliares de cozinha, uma pequena cidade montada no gelo.

Hoje é minha última noite com o grupo em Monjo, um pequeno vilarejo a 2800 metros de altitude. Tenho certeza de que será uma despedida com muita emoção já que estes dias nos uniram de uma forma muito especial. Sendo um grupo tão grande achei que isso poderia não acontecer, mas se tenho que resumir o que passou nesses dias a palavra que mais me vem a mente é harmonia.


Amanhã pela manhã, sigo recomeço minha subida em direção ao campo base do Everest, mas antes de iniciar o Everest farei a escalada do island Peak, uma montanha a 20 quilômetros ao sul com quase 6200 metros. Já escalei esta montanha várias vezes sempre guiando meus clientes, mas desta vez a razão é outra, me aclimatar para o Everest e com isso evitar pelo menos uma viagem pela temida cascata de gelo do Everest (Everest Ice Fall). Vou escalar o Island Peak junto com meus 3 companheiros do Cho Oyu, Greg, Marco e Rob além de nosso guia Victor Saunders. Estou muito feliz de reencontrá-los e dividir mais esta experiência com eles. A previsão é de fazermos o cume dia 10 de abril e em seguida seguir para o campo base do Everest e ao redor do dia 14 de abril realmente iniciar a escalada do Everest. Por muito tempo contava o tempo que me separava da grande escalada em anos ou meses. Agora são dias, muito poucos dias....

Nos Braços da Chomolongma

Poucas vezes em minha vida fiquei tão emocionado quanto hoje. Poucas vezes chorei tanto e ao mesmo tempo fiquei tão feliz. Ontem ao chegarmos em Deboche começou a nevar para grande felicidade de todo o grupo. Apesar de podermos ver a linda vista que se descortina da janela de nossos quartos, a paisagem pintade de branco compensou de sobra. Hoje, porém, logo ao acordarmos tivemos a maravilhosa vista do Everest, Lhotse, Nuptse, Ama Dablan, Kantega e Tramserku. Começamos a caminhar com um maravilhoso céu azul e com a temperatura perfeita. Após uma hora e meia chegamos ao povoado de Pamboche onde paramos para uma visita muito especial. Como fazemso com todos os grupos fomos a casa do Lama Geshe Ripoche, o mais respeitado lama do Khumbu. Ele nos recebeu com seu grande sorriso e o carinho habitual. Mas, hoje era um dia especial por mais de uma razão. Um de nossos clientes iria fazer uma surpresa para sua namorada. Sem que ela soubesse tinha comprado os anéis de noivado e me pediu que organizasse uma cerimônia com o lama. Primeiro todos nós fomos abençoados e em seguida pedi que os dois se sentassem na frente do lama. Só quando ele começou a entoar mantras e jogar punhados de arroz que ela desconfiou o que estava acontecendo. Quando ele lhe mostrou os anéis ela, e todos nós, caimos no choro. Foi uma cerimônia lindíssima e parte da minha emoção foi lembrar que de forma muito parecida me casei com a Andrea 3 anos atrás com este mesmo lama.


Veio então a hora de eu e a Andrea recebermos as bençãos para nossa escalada ao Everest. Assim que me sentei em frente ao lama começei a chorar e não parei pela duração da cerimônia, quase uma hora. Após a cerimônia ele nos falou em tibetano traduzido por Nima, nosso sardar, seus conselhos para que tudo corresse bem na expedição. Nos disse para mantermos o coração puro, ter apenas pensamentos bons e generosos e sempre que possível ajudar os outros. Se nos encontrassemos em uma situação onde realmente não fosse possível ajudar fisicamente que pelo menos em nossos corações pensassemos em ajudar. Enquanto ouvia pensava uma vez mais que queria dedicar toda esta experiência a todos que sonham com algo grande, algo significativo, algo importante. Que eles também, assim como eu, possam concretizar este sonho.


Reiniciei a caminhada um pouco a frente do grupo meditando no que havia vivenciado e nas sábias palavras

Queridos amigos e amigas

everest-blogNão sei quantos de você acompanham minhas andanças pelo mundo nos últimos 5 anos e quantos estão visitando este site pela primeira vez agora. Desde que comecei a escrever estes relatos tive como maior objetivo dividir com mais pessoas o que vivi nesses anos formidáveis que tanta felicidade e aprendizado me trouxeram. Quando olha para trás na minha vida, desde os anos estudando medicina, e de minha nova “reencarnação” como guia de montanha não posso deixar de me sentir abençoado e previlegiado por ter tido a vida que tive. Há mil maneiras de definir o que me levou a ter essas experiências tão ricas: destino, sorte, karma dependendo da inclinação espiritual de cada um.  Mas, também sei que parte disso aconteceu por minha feroz determinação de viver uma vida que me preenchesse, que fizesse sentido para mim e que me trouxesse um grande grau de felicidade, dentro do que é possível no Sansara.

Agora, essa mesma determinação de buscar dentro de mim as forças para ir atrás dos meus sonhos tornou possível estar a poucos dias de concretizar meu sonho mais ambicioso, estar no cume da mais alta montanha da Terra. Para isso treinei, caminhei e escalei incessantemente por 24 meses sempre focado neste plano. Os que acompanharam este site estiveram comigo em algumas das mais altas montanhas do planeta, fizeram meses e meses de trekkings e sofreram comigo minhas dores de cabeça causadas por altitude, minha exaustão para atingir o campo mais alto e as alegrias das muitas conquistas.

Agora então os convido para mais esta jornada que será sem dúvida difícil, um tanto arriscada, com muito sofrimento, mas tenho certeza, com muitas alegrias independentemente se atingir o cume ou não.

manoel-morgadoDia 26 de março parto para meu quadragésimo quarto trekking ao Everest. Estaremos guiando um grande grupo, 24 pessoas que quiseram nos acompanhar ao campo base. Antes de iniciar a escalada ao Everest vou subir mais uma vez o Island Peak como parte do meu processo de aclimatação. Com 6200 metros esta bonita montanha a poucos quilômetros ao sul do Everest me dará a aclimatação necessária para me dispensar de um das muitas subidas ao campo 1 do Everest evitando ainda que uma vez só a traicoeira cascata de gelo. Dia 10 de abril estarei definitivamente me instalando em minha barraca no campo base de onde subirei cada vez mais alto em direção ao campo 4 a 8.000 metros de onde em algm dia no final de maio espero estar saindo as 11 da noite rumo ao cume. Assim como no Cho Oyu, o processo de aclimatação consistirá em ciclos atingindo campos progressivamente mais altos sempre seguidos de alguns dias no campo base para recuperação.

Espero estar de volta a Katmandu apenas nos primeiros dias de junho, mais de 60 dias após ter partido. Espero ter a felicidade de ver a maravilhosa vista que se descortina do mais alto cume do planeta, mas sei que isto depende de muitos fatores. Do meu lado fiz tudo o que pude, treinei exaustivamente, me preparei mentalmente, adquiri toda a experiência que pude. Carrego comigo mais de 25 anos de montanha e a grande experiência que adquiri nesses anos em minhas jornadas pessoais e também guiando grupos. Estou preparado. Agora é pedir permissão para Chomolongma e torcer por bom tempo.

A caminho do campo base

Estou no quarto dia de trekking ao campo base do Everest guiando meu quadragésimo quarto grupo, desta vez um grupo grande, 24 pessoas que estão nos dando o prazer de acompanhar-nos para nossa escalada ao Everest.

Estes dias tem sido cheios de emoção, não só por mais uma vez estar no lugar deste planeta que mais eu posso chamar de minha casa, mas pelas demonstrações de afeto que temos recebido de nossos muitos amigos aqui no Khumbu. Logo que chegamos a Lukla, Dawa, o dono do lodge que frequentamos há muitos anos, nos chamou em seu escritório e nos ofereceu um cordão abençoado por um importante lama para que nossa escalada seja bem sucedida e que possamos voltar sãos e salvos. Também nos deu um pequeno pacote com grãos de medicina tibetana preparados também por um lama para usarmos caso fiquemos doentes na montanha. E como carinho final nos ofereceu um copo de vinho australiano branco para brindar ao nosso sucesso apesar de ser 9 da manhã. Iniciei o trekking com lágrimas nos olhos.

Ontem visitamos o pequeno monastério de Laudo onde moram nossos amigos Ani e Lama, os dois monges que há 20 anos são os únicos moradores deste lugar abençoado. Como sempre nos receberam com muito carinho, muita comida e deliciosos sorrisos. Como sempre faço com os grupos, aproveitei as horas que passamos lá para conversar um pouco mais sobre budismo, depois os levei para a sala de cerimônias e conduzi uma pequena meditação para que tenham a experiência de uma prática budista tibetana. Claro que não sou qualificado para isso, mas creio que esta pequena experiência pode plantar uma pequena semente que mais tarde pode levar aos nossos clientes buscar entrar em contato com esta maravilhosa filosofia e então sim, aprender com um mestre. Na saída, mais lágrimas. Pedi a Ani que pensasse em nós enquanto estivessemos escalando e ela disse que iria rezar muito por nós, mas que isso era somente o que ela podia fazer, nós tínhamos que ajudar tomando muito cuidado. Nos presenteou então com uma kata, uma echarpe de seda com mantras budistas enquanto sussurrava long life, long life (longa vida). Como tem acontecido nos últimos dias, logo após cruzar o portão do monastério rumo ao vilarejo onde iríamos dormir, olhei para trás e vi meus dois amigos dando tchau e pensei se esta não será a última vez que os estarei vendo. Mais e mais o perigo que estarei enfrentando muito em breve começa a tornar-se mais palpável. Durante o trekking algumas vezes tive esse mesmo pensamento como que de despedida de algumas coisas que acho particularmente tocantes. Não são omens ruins, não são pensamentos premonitórios e eles não me abalam muito. Sinto que é simplesmente a constatação, a realização de que existe um risco real em escalar uma montanha como o Everest. A caminho encontrei com um neo zelandês de quem já tinha ouvido falar muito. Anos atrás, escalando o Monte Cook na Nova Zelândia, ele foi pego por uma tempestade e acabou ficando onze dias preso em uma pequena caverna na neve que ele construiu para se abrigar até que finalmente o tempo melhorou e ele foi resgatado. Saiu com vida, mas sem as duas pernas. Anos depois, já com duas próteses, ele voltou a escalar o Mt Cook e em 2006 o Everest. Conversamos sobre o Cho Oyu e o Everest e ele disse que os 650 metros que separam essas duas montanhas em termos de altitude fazem uma diferença extraordinária. De acordo com ele que escalou ambas, o Everest é dez vezes mais difícil do que o Cho Oyu. Também esta conversa me abalou um pouco.

Apesar disso tudo, sinto que o sentimento predominante não é medo ou receio e sim felicidade por estar embracando em uma experiência tão esperada e tenho certeza tão intensa. Não há maneira de sair de uma escalada dessas sem que isso de alguma forma me transforme. Por tudo o que o Everest significa, pela duração de minha preparação, pela duração da escalada, pelos riscos envolvidos, pela dificuldade, sofrimento, alegrias, mais e mais sinto que chamar tudo isso de uma aventura, de uma escalada apenas é reduzir essa experiência em algo muito menor do que é na realidade. Se aproxima muito mais de uma peregrinação em busca de auto conhecimento, de buscar estar em um lugar que desperta em mim o melhor que sou.

Outro lado muito gostoso desses dias tem sido acompanhar o descobrimento desta região, da sua cultura, de sua beleza através dos olhos do meu grupo. A cada dia sinto as pessoas mais relaxadas, mais contentes, mais se vendo como parte de um grupo que está dividindo uma experiência extraordinária. Já não são as mesmas pessoas que chegaram em Katmandu. Já ouvi de dois que esta está sendo a melhor viagem de suas vidas e isso que estamos apenas no quarto dia de trekking. Temos mais onze dias de caminhada pela frente. A cada dia chegamos cansados ao nosso lodge, mas tudo que vejo e sinto ao meu redor é a alegria de todos, as risadas, as histórias, os sentimentos de cada descoberta. Para muitos, a maioria, este é o primeiro trekking de mais de dois dias. A mais nova tem quinze anos, o mais velho tem 63. São cariocas, paulistas, brazilienses, gauchos, mineiros e guatemaltecos.  Juntos nos deslumbramos com a paisagem, contamos nossas vidas, dançamos nas duas festas que já surgiram espontaneamente. Ja não somos um grupo de pessoas desconhecidas, mas amigos de longa data. Mal comecamos esta caminhada e já se fala em fazer uma outra no próximo ano. Como é o Kilimanjaro? Será que o Elbrus é muito difícil? Gostaria de ir ao Aconcagua. Alguns adoeceram com diarreia e as últimas duas noites passei em claro tratando dos doentes. Me sinto cansado fisicamente, mas tudo isso não tem importância frente ao que recebo deles. A troca de energia é fantástica. Não creio que pudesse ter escolhido uma forma melhor de chegar frente a frente ao Chomolongma. Sinto que nunca estarei sozinho escalando. Uma imensidão de amigos feitos nesses 20 anos de profissão como guia estarão me acompanhando, me empurrando, me apoiando. Não posso pedir mais...

Dedico tudo o que estou sentindo a todas as pessoas que sonham em fazer algo extraordinário. Que eles, assim como eu, possam ter oportunidade de realizá-los.